Artigos
A Relação Do Baço e do Pulmão nas Desordens Crônicas e o Homem como Produto de Si Mesmo

A Relação Do Baço e do Pulmão nas Desordens Crônicas e o Homem como Produto de Si Mesmo

Revista Medicina Chinesa Brasil, AnoV, n.16

Por Matheus Dias Almeida

Resumo: É cada vez mais frequente estarmos frente a doenças crônicas, índice que cresce de forma avassaladora nos novos tempos. Numa avalanche de “por que” não respondidos o homem busca ao seu redor o que está em si próprio. A Medicina Chinesa e seu olhar naturalista analisa toda e qualquer relação do indivíduo com seu entorno e consigo mesmo, e em um paralelo entre macro-micro abordaremos duas estruturas em especial, o Baço e o Pulmão, para elaborarmos o andamento das patologias crônicas que tanto nos assolam e amedrontam. Por fim, como tratar essas desordens? Qual o caminho que deve ser seguido? Todos nós devemos escutar nosso corpo, olhar para ele não como algo que deve responder nossos desejos, mas como uma integração mente-corpo, na qual, a aflição corpórea faz parte da nossa aflição. Afinal o corpo é nosso.

INTRODUÇÃO

Vivemos num paradoxo. A palavra paradoxo vem do latim paradoxum. Etimologicamente o prefixo para que significa oposto e doxa quer dizer opinião, uma opinião oposta, ou melhor, uma declaração aparentemente verdadeira que leva a uma contradição lógica. Vivemos em uma contradição, corporal, social, e de valores.

Por mais que pareça estarmos conectados com todas as redes sociais e com a velocidade da informação, na verdade estamos em grande desconexão! Não temos tempo para nada! Devemos cuidar dos filhos, da tese de mestrado, do trabalho, ir ao médico, comparecer aos aniversários de amigos, festas, etc, enfim, não temos tempo. Depois de tanta demanda, o nosso estômago ainda quer nos incomodar, a coluna dói, temos crise de enxaqueca, e as reclamações voltam-se para o corpo como se o indivíduo não tivesse nada a ver com essa história.

Com uma frequência, cada vez maior, chegam ao consultório pacientes que buscam um religare corporal e mental. O ritmo da sociedade em que vivemos é tão intenso que nos esquecemos que temos um corpo, ou ao contrário, quando prestamos a atenção neste corpo ele não está adequado aos nossos desejos, nunca está como gostaríamos. Fazemos um grande pecado com esse corpo, com essa mente.

Corpos desalinhados, doenças crônicas, cânceres, ELA (Esclerose Lateral Amiotrófica) e a lista dasdoenças éextensa. Seráque nos esquecemos que somos mestres do nosso corpo/mente? Que para toda ação existe uma reação de igual potência, nos tornando nós mesmos produtos das nossas ações? Cada ação éuma informação dada ao corpo que vai reagir de múltiplas maneiras na tentativa de se reequilibrar, gerando consequências múltiplas.

Na origem da vida, segundo os chineses háo encontro do céu e da terra e isso forma o homem. Algo aproximado entre a essência do pai e da mãe que se encontram e surge a vida. Nascemos. Quando nascemos precisamos de algo a mais do que a essência dos pais para sobrevivermos, precisamos de “combustível” chamado alimento e ar. Assim a relação do céu e da terra continua, pois respiramos o ar que vem do céu, comemos e bebemos o alimento que brota da terra.

Atualmente recebemos uma carga de informação inimaginável comparados com momentos pretéritos. Háuma enorme demanda e nosso organismo deve potencializar seu metabolismo para poder acompanhar essa enxurrada de notícias. Dessa sobrecarga advém a falta de concentração, uma alimentação escassa, sedentarismo ou atividade física em excesso. A respiração se torna curta, entre outras restrições a que nos impomos. Esse éo princípio da desconexão individual. O corpo compõe O ser integral. Não existe esse conceito do corpo E emoção e sim do corpo/emoção, corpo/mente. Não éo estômago somos nós que nos auto-infligimos a dor, a doença, o desconforto, a não capacidade do fazer. Redefinimos nosso ser através das interações, eu comigo mesmo e eu com o meio no qual me relaciono.

Na Medicina Chinesa pensamos em respirar para potencializar a dinâmica do corpo, e isso acontece com a ajuda dos pulmões como o alimento nos fortificamos através da transformação do Baço. Quando falamos dos órgãos e vísceras, através do pensamento chinês, apresentamos uma teoria própria, não os analisamos como concebidos e elaborado na medicina ocidental. Pensamos nos órgãos como função o que veremos mais adiante neste artigo.

SURGIMENTO DA VIDA

Quando refletimos sobre a formação da vida sabemos que háum encontro entre o desejo do pai e da mãe, a essência 精 Jīng do pai e da mãe se unem. Quando esse encontro é consolidado a consciência 神 Shén se expressa. Chamo atenção ao termo Shén, pois quando os autores o traduzem como consciência, não devemos confundir com o que o ocidente entende sobre o assunto. Para o chinês Shén é algo como uma força criadora que traz identidade ao indivíduo no qual registra suas impressões. É muito difícil uma definição formal de Shén por isso me não me limitarei neste tema para não fugirmos à abordagem inicial.

A carga essencial provida pelos nossos pais armazenam-se nos Rins 肾Shèn. Como comentamos acima não devemos entender Rim como um órgão que trabalha na filtragem da urina, para a Medicina Chinesa a expressão dos Rins é muito maior e mais profunda, pois ele não só armazena toda nossa essência ancestral, que alguns interpretam como carga genética que rege toda a funcionalidade do nosso corpo, mas é, antes de tudo, a força original que anima nosso corpo. Assim os chineses nomearam essa força geradora de vida como Céu Anterior Xiān Tiān 先天.

O Rim é entendido como a base da vida. Muitos autores o relacionam com as raízes de uma árvore onde retiramos toda nossa fonte de energia, é a parte de nós que permite que tudo acontece. Não é por menos que os chineses relacionam na força do Rim o componente da Vontade Zhī , a vontade da vida em si, ou seja, aquilo que nos mantém de pé, firmes. O arcabouço da estrutura corporal é presente em nós puramente pela qualidade dos Rins. Por isso os chineses dizem que o Rim controla osso, esse arcabouço é o nosso esqueleto.

Podemos entender Céu Anterior como o pano de fundo, a tela do pintor, a base do surgimento da vida. Enquanto tivermos Jīng dos nossos pais a vida continua brotando. Mas o que traz cor ao pano de fundo, a essa tela, são as tintas do pintor, no corpo, estas se equivalem às funções do Baço Pí 脾 e do Pulmão Fēi 肺. Esses, segundo a sabedoria chinesa são os chamados Céu Posterior Hòu Tiān 后天, ou seja, os órgãos que tem a capacidade de dar qualidade e sustentação às nossas vidas e nos mantém saudáveis.

Quando pensando em Baço, pensamos em digestão. A qualidade das nossas refeições refere diretamente na qualidade da nossa saúde ou na potência da nossa doença. Esse órgão éresponsável pela transformação e transporte dos alimentos, forma o sangue, nos traz a base substancial de desenvolvimento corporal. O Pulmão, por sua vez, se relaciona com o ar a nossa volta, respirar corretamente nos ajuda a captar melhor a energia que nos faráter disposição para enfrentarmos nosso dia a dia. Uma boa capacidade respiratória implica num bom relacionamento com o mundo exterior, pois éatravés da nossa “permissão” em deixarmos o ar entrar e sair que permitimos não somente a renovação celular em nível de oxigênio, mas vamos muito além, permitimos a renovação de tudo em nossas vidas. Pelo simples ato de inspirar e expirar.

Temos em nossas mãos a capacidade de definir nossa saúde ou doença. Mesmo que haja um processo hereditário eminente, com bons hábitos de vida podemos transformar o que se diz ser genético e uma “sina fulminante” traçada por nossa hereditariedade. Na Medicina Chinesa entende-se por genética algo que estáimpresso na essência dos pais, porém a ativação ou não do fator hereditário segue o sistema de repetição dos hábitos de vida da geração que nos precede.

5 MOVIMENTOS Wǔ Xīng 五行

Uma teoria importante que abordarei neste artigo sobre o Baço e Pulmão é a conceito de Cinco “Elementos”, Movimentos ou Fases para entendermos um pouco a dinâmica entre esses órgãos.

Os números no pensamento chinês ganham sentido não apenas em quantidade, mas também em simbolismo, Cinco Wǔ 五 que expressa a organização da vida, é a representação da relação existente entre o corpo e o meio em que vivemos. Xīng 行 traz a imagem pictográfica de um homem em movimento. Wǔ Xīng 五行 se torna a representação de tudo que move, de tudo que acontece ao nosso redor, em nossos corpos, é o conjunto dos processos cíclicos de nascimento, crescimento, desenvolvimento, maturação, fenecimento e morte. Esses ciclos representam desde nossos processos de renovação celular até um ciclo do dia e da noite, no conceito Wǔ Xīng, tudo isso é a mesma  coisa, do macro ao micro.

Estamos o tempo todo sujeito aos efeitos climáticos, aos hábitos de vida, às emoções. Pensar em fases, como sugere a teoria, épensar nas nossas próprias fases de vida, onde nos transformamos a cada etapa. Temos que nos adaptar ao estímulo na qual estamos expostos. Assim, quanto mais entendermos a nossa própria dinâmica mais compreenderemos as fases que estamos sujeitos e menos doença iremos criar em nós mesmos.

Na teoria dos cinco movimentos somos apresentados a cinco “elementos” que são representativos, pois muito mais do que elementos eles demonstram uma qualidade que os representam. Madeira , Fogo Hǔo火, Terra , Metal Jīn 金, Água Shǔi 水, essas são as representações das cinco fases. A expressão da Madeira demonstra-se na potência do surgimento da vida, na criatividade, na flexibilidade e na bondade; o Fogo como a potência do amadurecimento, da animação da vida, do joi de vivre e da espontaneidade; a Terra na sua potência de nutrição, de acolhimento, de proteção e a sinceridade; o Metal com a potência da sensibilidade, do deixar passar, da contemplação e da justiça; e por fim a Água com a potência do misterioso, da adaptação, da confiança e da sabedoria.

Dessa maneira poderemos entender que háuma força reguladora que se comunica constantemente uma com a outra em uma lei que chamamos de geração Shēng 生 onde um elemento suporta o surgimento do outro e a lei do corte, da dominação, do controle Kè 剋 onde um elemento freia o movimento do outro formando um balanço, uma dinâmica reguladora.

Háuma associação com a dinâmica deste ciclo com o movimento do corpo, por fim, dos nossos próprios órgãos internos Zàngfǔ 脏腑. Através dos cinco movimentos identificamos uma função mais elaborada e complexa dos Zàngfǔ, transcendendo a imagem que temos na medicina ocidental onde há uma dependência anatomoclínica, analisando o órgão como estrutura apenas. O chinês olha o órgão como função compreendendo sua importância tanto física quanto psíquica, já que não há separação dessas duas “entidades”.

Assim o paralelo “elementos”-órgãos internos seguem a seguinte disposição: Madeira com o Fígado/Vesícula Biliar; Fogo com o Coração/Intestino Delgado; Terra com o Baço/Estômago; Metal com o Pulmão/Intestino Grosso; Água com o Rim/Bexiga.

Quando focamos no Baço que faz parte do movimento da Terra e o Pulmão que faz parte do movimento do Metal vemos que o primeiro relaciona-se com a nutrição e o segundo com o relacionamento interpessoal. Na lei de geração o Clássico Médico diz que a Terra cria o Metal, ou seja a nutrição permite que as relações aconteçam, jáque não hápossibilidade de relacionamento sem base, sem estruturação e quando háum bom relacionamento entre o Baço e o Pulmão, quando háuma boa comunicação entre o comer e o respirar, entre a sinceridade e a justiça, entre a proteção e a sensibilidade háum corpo justo e firme, conectado e que permite relacionar-se com o meio externo. O Céu Posterior suporta o Céu Anterior com hábitos de vida diários que favorece ao corpo em formação.

Para os chineses o corpo Shēn 身 é a representação de uma mulher grávida, dando a alusão de um homem/mulher que está gerindo a si próprio. Nos construimos o tempo todo, e quando essa transformação está sob um solo firme as virtudes se manifestam e o corpo fica saudável.

BAÇO

中央生湿,湿生土,土生甘,甘生脾,脾生肉,肉生肺,脾主口

A região central faz surgir a umidade, a umidade faz surgir a terra, a terra faz surgir o sabor doce, o sabor doce faz surgir o baço, o baço faz surgir a carne, a carne faz surgir o pulmão, o baço é mestre da boca. (Questões Simples Capítulo 5)

A citação acima de um dos cânones da medicina chinesa chamado Questões Simples SùWèn 素问 demostra como o chinês elabora as função dos órgãos, no caso sobre o Baço . O pensamento chinês é sempre direto, ou seja, quando diz que a região central cria a umidade ele tem como referência os ciclos sazonais (primavera, verão, outono, inverno). Todas as estações, antes de seguir o próximo movimento retoma ao centro, ela volta ao seu movimento de origem para se preparar para a nova estação. Os chineses observaram que durante as trocas das estações costuma chover muito, em especial no final do verão, assim a região central, o centro, se relaciona com a umidade, com a chuva. Essa umidade forma a Terra, um dos ciclos dos cinco movimentos já citado acima. Essa Terra só cria forma quando está molhada, se permanecer seca demais se torna estéril, vide os escultores, em especial os que esculpem na areia, só se cria a forma se tiver água. Com isso a umidade cria a terra. O chinês faz um constante paralelo através da observação do meio natural com o corpo, relacionando do macro com o micro, exterior e interior. Assim chegamos ao entendimento que o Baço, que se localiza no centro do corpo, se relaciona com a umidade, com o movimento Terra, com o sabor doce, com a carne (músculos), e é mestre da boca, mestre dos sabores, mestre da digestão, mestre da sustentação, mestre da saúde.

Baço Pí 脾 etimologicamente é formado pelo ideograma carne Ròu 肉, à esquerda, representando o corpo, ou pode ser interpretado como Lua Yuè 月 onde demonstra que se remete a algo que é Yīn 阴 ou seja, que está no interior de nós mesmos. Na direita, apresenta-se Bēi卑 que significa humilde, inferior, modesto, porém há uma imagem pictográfica de Bēi que lembra a uma taça antiga, algo que era usado todos os dias. Este órgão representa um humilde servente que favorece a vida, todos os dias, fazendo os trabalhos ordinários, mas essencial ao corpo. O animal que representa o elemento Terra é o Boi, este, na china antiga, trabalhava todos os dias lavrando a terra para nos fornecer alimento.

Mantendo a parte fonética do ideograma do Baço e substituir o radical de carne Ròu 肉 pelo de mulher Nǔ 女 cria-se o ideograma 婢 que significa servente, historicamente a escrava que servia os senhores em tempos antigos na China. Um outro paralelo surge com o radical de ser humano Rén 人, criando o ideograma Bǐ 俾 que significa ser capaz, e por fim com o radical da doença Nè 疒, se torna um tipo específico de doença Bì 痺.

É de grande relevância observarmos essas relações que a escrita chinesa nos proporciona e entender a relação existente da importância do Baço na saúde-doença, quer dizer, no papel da alimentação nos processos de adoecimento. Um dos maiores deflagradores de um Baço que não funciona adequadamente é a perda do eixo central, do frio de prumo como a hipotonia muscular ou lassidão dos membros.

Estamos fora do eixo, nosso Baço estáenfraquecido. Vide o aumento do índice de doenças crônicas.

PULMÃO

西方生燥,燥生金,金生辛,辛生肺,肺生皮毛,皮毛生肾,肺生鼻

O oeste faz surgir a secura, a secura faz surgir o metal, o metal faz surgir o sabor pungente, o sabor pungente faz surgir o pulmão, o pulmão faz surgir a pele e os pelos, a pele e os pelos fazem surgir os rins, o pulmão é mestre do nariz.

(Questões Simples Capítulo 5)

Seguindo o capítulo cinco do livro Questões Simples observamos a mesma linguagem direta da relação macro e micro. A região oeste éonde a secura se manifesta, e representa a região desértica da China. Relacionado com o Outono, estação mais seca das quatro estações. A secura cria o movimento Metal, o sabor pungente que se relaciona com o Pulmão. Segundo Rochat de la Vallée e Larré(2001) a diferença existente entre o sabor pungente e o Pulmão seria que sabor pungente ésomente pungente na natureza e o Pulmão seria a representação do pungente no homem. Tudo isso émuito complexo para entendermos, mas ao mesmo tempo muito fiel ao pensamento chinês, seria o mesmo que dizer que o movimento metal no exterior do corpo éa secura, no interior chama-se pulmão, para eles o Pulmão, o Metal,  a secura, o sabor pungente e etc são a mesma coisa. Assim observamos que o pulmão se relaciona com o movimento Metal, com a secura, com a pele e pêlos, com o sabor pungente e émestre do nariz, mestre da respiração, mestre da relação interior-exterior, mestre da defesa do nosso corpo.

Pulmão Fèi etimologicamente traz na sua esquerda Ròu 肉, o mesmo apresentado pelo Baço, e apresentado por todos os Zàngfǔ 脏腑, exceto o coração Xīn 心. Na sua direita vemos Shì 市 um ramo de uma árvore que cresce do solo, é a representação do elemento Terra presente no ideograma de Pulmão, porém há uma imagem pictográfica de uma planta que não está crescendo , esta não cresce para cima, e sim lastra-se pelo solo, como as plantas rasteiras, representando a imagem do próprio Pulmão como as multiplicações de bronquios, bronquiolos e por fim os alvéolos. Se adicionarmos o radical de vegetação na parte de cima do ideograma ele torna-se Fèi 芾 que significa arbustos ou plantas jovens.

A relação entre Pulmão e Estômagoétão íntima que além da representação do movimento Terra no ideograma do Pulmão, temos este mesmo ideograma presente no Capítulo 52 do Questões Simples com a pronúncia Shì que significa mercado, um lugar de trocas, porém Shì também é um nome usado em situações especiais para Estômago.

O Pulmão éentendido como um grande guarda-chuva, uma abóbada que abriga todos os outros órgãos, por isso ele éconsiderado como o sistema defensivo do nosso corpo como também éo mais exposto jáque háuma relação direta deste órgão com o exterior do corpo através do nariz, por isso o clássico atesta que ele émestre do nariz.

魄 e YÌ AS DUAS “ALMAS”

Segundo a Medicina Chinesa o corpo físico com suas emoções não são e nem podem ser vistas como entidades distintas. O corpo éo receptáculo, a emoção éa animação da vida via nosso corpo. Como separar o peixe da água sem que sua vida se extinga? Como separar o homem dos seus sentimentos?

Falar de e é uma tarefa muito difícil, pois vinculam-se a elementos altamente elaborados no pensamento médico, buscarei simplificar da melhor forma possível. No início do artigo falei que o desejo do pai e da mãe, quando unidos, faz surgir a vida que inicia-se pelo processo da “consciência” Shén. Esta é a expressão do indivíduo no mundo, e este indivíduo expressará sua individualidade através do seu corpo. Cada órgão tem uma função para com o corpo, função esta que atinge em todos os níveis do ser – do personagem como diz o Essaylet (2014). Se cada órgão tem uma importância no corpo ele faz parte não só de como nosso corpo é metabolizado em nível celular, mas igualmente e simultaneamente em nível psíquico. Quem guia todo esse processo é o Shén.

“O Shén se traduz como sendo uma expressão individual do ser, Hún 魂 e 魄 como o par Yīn Yáng 阴阳 caracterizando pelos Espíritos dados ao homem para construir seu coração, e 意 e Zhì 志 como a realização do homem no mundo, base do funcionamento do coração e levarão ao que chamamos de “pensamento”. (DIAS ALMEIDA, ____).

Shén, Hún, , e Zhì são partes específicas do aspecto psíquico ou das “almas”, “espíritos” de cada órgão. É sabido que essas cinco “almas” tomam como seu regulador o Shén.

se relaciona com o Pulmão e com tudo que fixa o ser humano no corpo, à unidade corporal e que não é diretamente ligado à consciência e à vontade. Relaciona-se com as reações instintivas corporais, os ritmos corporais, como respiração e circulação.

A associação de ao Baço pode ser feita pelo fato de que alimentar o Coração, dando memórias, lembranças, objetos sobre o qual possa trabalhar, como faz com o Sangue. A Terra que alimenta e fornece substrato dando possibilidade de uma forma, uma existência, assim também permite que o pensamento tome forma.

É importante tomar nota que falar das estruturas sutis do corpo de forma separada, acontece somente para fins didáticos para maior compreensão, uma estrutura não existe sem a outra. Quando trabalhamos uma, necessariamente trabalhamos a outra.

CLÍNICA

Chegamos ao objetivo central deste artigo, a relação Baço e Pulmão com a clínica. Ressalto que a Medicina Chinesa tem como principal foco o ser humano, não existindo o conceito de doença. No corpo hádesorganizações que levam a processos de sofrimento, onde nomeamos no ocidente de doença. A Medicina Chinesa busca o ajuste desse sofrimento, na busca de uma relação mais profunda e harmoniosa do indivíduo consigo mesmo. A importância aqui écomo cada ser humano se relaciona consigo mesmo.

Como toda terapêutica háuma linha de raciocínio que leva àconclusões para por fim chegar a um diagnóstico, chamados sinais e sintomas. Após segue-se a terapêutica e o prognóstico, ou seja, a evolução esperada da melhora do paciente em questão.

Com base nas informações apresentadas durante todo o artigo, observei na clínica que o paciente/indivíduo com uma desorganização de baço apresenta uma desorganização de centro, de nutrição, de capacidade de dar e receber acolhimento. Vejamos sinais e sintomas comuns de Baço, segundo o pensamento chinês: lassidão muscular, hipotonia, dificuldade digestiva, distensão abdominal, diarréia, sensação de peso no corpo, urina turva, cansaço, sonolência, desejo de comer doce. Podemos ainda traduzir esses sinais e sintomas em doenças ocidentais: leucorréia, xantorréia, anorexia, disbiose, frouxidão articular, hérnias (de disco, hiato, ingnal), anemia, entre outras. Sendo assim o Baço tem papel fundamental sustentando o ser humano em nutrição, facilitando o sistema digestivo em plena função, como também o funcionamento de todas as glândulas. Para os chineses o alimento éo sangue do dia a dia, sem alimento, ou uma captação adequada desse alimento não podemos formar sangue.

Sinais e sintomas comuns do Pulmão são, segundo o pensamento chinês: tosse, falta de ar, fraqueza o sistema imunológico, cansaço, opressão torácica, plenitude torácica, sensação de choro, face empalidecida, desânimo. Podemos ainda traduzir esses sinais e sintomas em doenças ocidentais: imunodesregulação, constipação nos idosos, gripe comum, pneumonia, asma, depressão.

Quando unimos esses dois órgãos em questão, observamos que eles são os responsáveis por nos proporcionar disposição para o dia a dia, o ânimo que precisamos para acordar e fazer nossas atividades diárias. O “ATP” (adenosina trifosfato – resultado final da respiração celular seguindo o ciclo de Krebs) ou for fim e o nome mais fiel o falado pelos chineses. Esse é algo que regula a dinâmica vital do corpo, a força impulsionadora.

Os maiores formadores de no corpo são o Baço e o Pulmão juntos, eles constituem a matéria prima para nosso corpo. Sem um bom funcionamento desses dois órgãos sofreremos de falta de matéria prima, de falta de vitalidade, de disposição, de regulação corporal, e por fim daremos segmento a todas as demais desorganizações por vir.

COMO CUIDAR DO BAÇO E DO PULMÃO

Estou insistindo, o tempo todo, que o corpo éuma estrutura única, composta de vários componentes com suas funções pré-estabelecidas de suporte para a vida. Recortei o Baço e o Pulmão com suas funções capitais de proporcionar matéria prima para o corpo ter um desenvolvimento fisiológico adequado. Agora vou me deter em como contribuir para que estas funções fisiológicas sejam otimizadas.

Indico tratar de diversas formas, desde alimentares, com movimentos físicos e respiratórios, com massagens, com plantas. Mas neste artigo tenho o intuito de mostrar o potencial da capacidade de uma acupuntura bem embasada na sua origem. Selecionei 03 pontos importantes no tratamento e traçarei informações aprofundadas sobre eles, seguindo seus devidos nomes.

Eyssalet (2011) comenta que a tudo que nomeamos introduzimos uma identidade/consciência ou um segmento afetivo, uma função. Não éao acaso que os pontos de acupuntura tem nomes. No ocidente, para simplificar, demos números a eles, mas hoje gostaria de apresentar os seus devidos nomes.

Pulmão 9 – Tàiyuān 太淵 Abismo Supremo; Reservatório Supremo :

Este é o ponto Terra e o ponto fonte do Pulmão. É na grande profundidade que podemos encontrar a nutrição e a estabilidade para seguirmos em frente não importando o que o destino coloca a nossa frente na nossa jornada diária. Neste ponto de acupuntura podemos encontrar respeito e uma sabedoria profunda em nós mesmos. Neste grande abismo podemos encontrar sabedoria para entender as experiências que vem até nós. Quando entendemos o desconhecido podemos seguir a diante para novas experiências. Nos permitimos no deixar passar e mergulhamos no oceano onde somos ainda nós mesmos mas diferentes. Nestas mudanças encontramos mais da vida que nos proporciona grande segurança para simplificar a nós mesmos.

Tàiyuān é uma grande força, um grande abismo, um reservatório supremo ancorado na riqueza que há por dentro, aprendemos a nadar em novas direções e ver mais claramente a riqueza que temos dentro de nós. Tài traz o ideograma de um grande homem com algo a mais, significa supremo, muito, o mais, grandioso. Yuān traz a imagem pictográfica de uma água que é vigorosa como um redemoinho, lembra um golfo, um abismo, algo profundo. Quando nos sentimos inseguros, desesperados, desesperançosos, este ponto ajuda a nos conectarmos com a nossa essência para nos nutrirmos. Estaremos amparados, seguros e encontraremos nossa estabilidade. Podemos tocar nas nossas habilidades, qualidades, recursos e trazer o brilho da vida de volta.

Baço 3 – Tàibái 太白 O Grande Movimento da Energia Pura e Límpida; Branco Supremo :

É parte do trabalho do Baço em enviar comida pura, puro e límpido para todo o corpo nutrindo mente, corpo e espírito. O Baço estoca a semente da vitalidade. Neste ponto de acupuntura encontramos segurança e estabilidade. É onde podemos encontrar o que precisamos para nossa força vital e impulsionadora do dia a dia, encontrando nossa força para nosso caminho na vida.

O ideograma de Tài é o mesmo descrito do ponto Tàiyuān. Bái é a imagem dos primeiros raios de sol apontando ao horizonte no momento que o céu se torna todo branco com a sua chegada. representa nosso espaço vazio quando deixamos de lado nossas coisas materiais podendo encontrar quem realmente somos. Essa essência é quem somos e nunca poderá ser retirada de nós. Através dessa essência nossa vida pode encontrar a harmonia e a segurança. Tàibái é a grande energia de colheita da nossa força vital. Este ponto tem a potência de nos mover e de nos proporcionar grande vitalidade. Traz um senso de paz e calma para podermos saber o momento correto e a quantidade correta do dar e receber.

Vaso da Concepção 12 – Zhōngwǎn 中脘 Duto Central; Cavidade Central; Núcleo Central :

É dito que se mantivermos nosso foco e formos direto ao nosso alvo, então teremos poucos erros na vida. Zhōngwǎn é o duto central. É o centro da nutrição onde a digestão traz vitalidade. O ideograma de Zhōng traz a imagem de um objeto sendo cortado ao meio e ambos os lados podem ser vistos como iguais demonstrando o equilíbrio que temos na vida. Sem subida não há descida, sem direita não há esquerda. Zhōng também representa uma flecha que acertou o centro do alvo. Quando estamos no nosso devido caminho a vida flui bem, mas quando não estamos centrados as dificuldades surgem. Para os chineses isso advém de excessos. Trazer tudo de volta para a moderação mantém nossa estabilidade e podemos mover para o nosso centro com vitalidade.

Wǎn tem o radical de carne e ao lado a ação de completar uma casa colocando o telhado. Remete a uma cavidade que favorece as situações a moverem-se para sua conclusão. Aqui é onde a nutrição da comida, ar, água, e o adquirido são unidos para nutrir todo o corpo com o que eles necessitam para mover em harmonia.

Zhōngwǎn é nosso centro da nutrição que alimenta nossa foco interior e nossa visão. Através da plenitude desse centro temos segurança e conseguimos buscar tudo o que está ao nosso redor. Esse ponto assegura uma nutrição estável do nosso núcleo central onde podemos digerir a vida com facilidade e agir com o que esta porvir.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Busquei neste artigo desenvolver um olhar mais fiel encontrado nos textos clássicos da MC, onde não há esforço de tentar aproximar ao paradigma médico atual. Duas medicinas, igualmente importantes, com dois olhares que se distinguem, apresentando um objetivo similar que éde abrandar ou evocar a cura no indivíduo. A base da MC éde uma maior integração do homem consigo mesmo e por fim com o ambiente ao seu redor. A doença não écelular apenas, ela érelacional, desde o relacionamento intra e inter celular atéo relacionamento entre as pessoas e o ambiente no qual vivemos.

Desejamosuma cura milagrosa, mas esquecemos que somos mestres de nós mesmos e o ser humano écapaz de construir seu auto-desenvolvimento ou a doença que o aflige. O papel da Medicina Chinesa éde ser mediador, facilitador para um corpo desorganizado e bloqueado encontre sua própria via de reestabelecimento. O acupuntor não cura, favorecemos a cura, “adubamos o campo”[o corpo] para por fim o indivíduo se auto-curar.

BIBLIOGRAFIA

FERREIRA, C. SHÉN 神: Categoria Estruturante da Racionalidade Médica Chinesa. 2007. 157f Tese (Mestrado em Saúde Coletiva) – Instituto de Medicina Social, UERJ, Rio de Janeiro. 2007

MACIOCIA, G. The Psyche in Chinese Medicine: Treatment of Emotions and Mental Disharmonies with Acupuncture and Chinese Herbs. Ed. Churchill Livingstone, 2009

AUTEROCHE, B., NAVAILH, P. Diagnóstico na Medicina Chinesa. Andrei. São Paulo, 1992

HICKS, A.; HICKS, J.; MOLE, P. Acupuntura Constitucional dos Cinco Elementos. Roca. São Paulo, 2007

MACIOCIA, G. The Psyche in Chinese Medicine: Treatment of Emotions and Mental Disharmonies with Acupuncture and Chinese Herbs. Ed. Churchill Livingstone, 2009

VALLÉE, E.R. WǔShén. Seminário Lisboa, 2012

FERREIRA, C. Invisível, Sutil e Palpável: Shen nas Dimensões Diagnose e Terapêutica da Racionalidade Médica Chinesa. 2011. 231f. Tese (Doutorado em Saúde Coletiva) – Instituto de Medicina Social, UERJ, Rio de Janeiro, 2011

DECHAR, L. E. Five Spirits: Alchemical Acupuncture for Psychological and Spiritual Healing. Lantern Books. New York, 2006

EYSSALET, J.M. Associação “A Escuta do Coração”. X Seminário de Medicina Tradicional Chinesa. Rio de Janeiro, 2014

EYSSALET, J.M. Problemas Existenciais&Sabedoria do Corpo. IX Seminário de Medicina Tradicional Chinesa. Rio de Janeiro, 2012

NGUYEN, V.G.; DZUNG, T.D.; NGUYEN, C.R. Huangdi Neijing Lingshu: Edição Comentada. Tradução Prof. Dr. Ysao Yamamura. Ed Center AO, São Paulo, 2008

KAATZ, D. Characters of Wisdom: Taoist Tales of the Acupuncture Points. The Petite Bergerie Press. Bicester, 2009.

DIAS ALMEIDA, M. Acupuntura nos Distúrbios Psicoemocionais. Revista Medicina Chinesa Brasil, Ano III, n.10, 2014.

UNSCHULD, P. Huang Di nei jing su wen: Nature, Knowledge, Imagery in Ancient Chinese Medicine Text. University California Press. London, 2003

LARRE, C.; ROCHAT DE LA VALLÉE, E. The Lung. Monkey Press, 2001.

LARRE, C.; ROCHAT DE LA VALLÉE, E. Spleen and Stomach. Monkey Press, 2004.

KAPTCHUK, T.J. The Web that has no Weaver. Ed McGraw-Hill. New York, 2000