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Acupuntura, para que serve?

Acupuntura, para que serve?

Por Matheus Almeida

Existe um dito popular chinês que diz: 木下曰本 “abaixo das árvores encontram-se suas raízes”. A partir deste dito, sinto a necessidade de mergulhar nos fundamentos da Medicina Chinesa (MC) e suas raízes médicas na história da China. Afinal, não importa se vamos falar de conhecimento, de tribos, de civilizações ou até mesmo de nós mesmos… sempre existe um início que contextualiza todo o desenvolvimento do que está por vir.

Como sou fascinado com a etimologia das palavras, me deparo com o termo “paradigma” tão falado hoje em dia e que vem do grego παράδειγμαparadeigma. Para o linguista suísso Ferdinand de Saussure (1857-1913), essa palavra significa: o signo atribuído ao conjunto de elementos que constituem a língua. Uma forma de símbolos ou mesmo sons que determinados grupos de indivíduos utilizam para se comunicar. 

Já na concepção do pesquisador Thomas Kuhn (LUZ, 2005), “paradigma” seria:

“realizações científicas que geram modelos que, por período mais ou menos longo e de modo mais ou menos explícito, orientam o desenvolvimento posterior das pesquisas exclusivamente na busca da solução para os problemas por elas suscitados”

Ou seja, os autores citados nos ajudam a compreender que os símbolos que usamos para nos comunicarmos também estão presentes no mundo da ciência. Isso nos leva ao argumento de que a ciência como concebemos é apenas uma visão de mundo, como tantas outras, com determinados símbolos que busca responder perguntas criadas por ela mesma.Volto a minha fascinação, ou talvez obsessão pela etimologia, dessa vez com a palavra ciência. Ciência, do latim scientia, pode ser traduzida como conhecimento. Toda a forma de conhecimento, seja erudito, tácito, ou qualquer outro é uma expressão da ciência. 

Então para não nos confundirmos, vamos seguir passo a passo: o que é científico concerne à ciência, no sentido estrito da palavra; o que usamos como científico (no nosso paradigma) é um conjunto de símbolos que é usado em um determinado “círculo de pessoas”.

Não tenho o intuito de descredibilizar nenhuma forma de conhecimento, mas sim defender que, em paralelo, existem inúmeros outros saberes também válidos que possuem seus próprios paradigmas, com suas lógicas e entendimentos sobre como o mundo se comporta. É bom observar que visão de mundo pode se chamar cosmologia. 

Com essa introdução busquei fundamentos para discutir a questão no campo da medicina. E, para adentrar trago o que Madel Luz chama de Racionalidades Médicas e suas dimensões. Com base no paradigma de Kuhn, a socióloga compreende que para um saber ser considerado médico deve transitar em 5 dimensões, a saber: Doutrina Médica, Morfologia, Dinâmica Vital, Sistema Diagnóstico e Sistema Terapêutico. Vamos entende-las:

Doutrina Médica – seria a filosofia ou doutrina norteadora do pensamento da medicina em questão. Na Medicina Chinesa, “puxando a sardinha para a minha lata”, as bases filosóficas são o Taoismo, o Confucionismo e o Budismo que compõem o pensamento chinês;

Morfologia – é a composição estrutural do corpo ou o que chamamos de anatomia;

Dinâmica Vital – é a fisiologia, ou melhor, como é compreendido o funcionamento do corpo;

Sistema Diagnóstico – são as ferramentas para uma conclusão do motivo do corpo apresentar uma determinada disfunção;

Sistema Terapêutico – significa com qual metodologia será tentado solucionar o que foi diagnosticado.

A partir desse princípio, toda prática médica que detêm essas cinco dimensões está capacitada para o exercício da medicina. No entanto, algumas práticas terapêuticas como o Reiki ou Florais, que apesar de alcançarem suas aplicações comprovadas hoje, bem aceitas e com excelentes resultados; não podem ser consideradas práticas da medicina por não apresentarem as cinco dimensões citadas.

      A professora Luz traz também como idéia a cosmologia como um fio condutor das referidas dimensões. De fato observamos que a nossa forma de interpretar o mundo influencia diretamente todo o nosso comportamento, e a maneira como aprendemos novos conhecimentos. Podemos pensar que a rigor a cosmologia é o aspecto cultural onde estamos imersos.

Novamente introduzindo a medicina como referência do meu artigo, peço que imaginem falar sobre uma medicina que vem do outro lado do mundo, de outra cultura e originária de um período tão longínquo. Durante minhas reflexões e elaborações, venho me indagando sobre como a Medicina Chinesa, compilada na dinastia Hàn (206a.C – 200d.C) com seu primeiro corpo teórico descrito no Huāngdì Něijīng (Clássico de Medicina Interno do Imperador Amarelo), funciona com maestria e eficácia até os dias de hoje? Mas o próprio texto clássico me trouxe essa resposta quando o Imperador Amarelo nas suas indagações dizia que o povo de antigamente era mais pacato. Ele se refere as pessoas antes mesmo do seu tempo. Isso me levou a refletir que nós seres humanos sofremos das mesmas questões e reagimos de formas similares desde tempos imemoriais. Isso tudo se deve, imagino eu, a nossa própria fisiologia, ou melhor, a nossa biologia que se mantém, mesmo em tempos nada pacatos.

Apesar de passarmos por mudanças externas – transformações tecnológicas sobretudo – continuamos a ter um fígado, um coração, um intestino; precisamos ainda comer, respirar; indo mais profundamente precisamos sentir e nos emocionar. Isso não mudou. Dito isso vamos entender um pouco o que molda a Medicina Chinesa e a torna tão impressionante e compreensiva no trato do ser humano. Vamos falar de suas raízes.

Medicina Chinesa e sua fundamentação

A data de início da Medicina Chinesa exatamente não sabemos, há especulações de ter sido praticada já na dinastia Xia (2100a.C – 1600a.c). Do ponto de vista acadêmico há o registro de que um dos anos de grande crescimento e desenvolvimento intelectual e cultural da China foi na dinastia Han (206a.C – 200d.C). Dois grandes clássicos da medicina: Huangdi NeiJing Suwen Lingshu e o NanJing que são utilizados até hoje foram compilados nessa época. É nesses cânones que toda a teoria da Medicina Chinesa é apresentada com seu pensamento organizado em uma lógica própria.

Quero destacar que existe um campo teórico altamente elaborado. O acupunturista ao usar suas técnicas não o faz ao acaso, ou por um sentimento/sensação, ou ainda por qualquer coisa que fira sua própria lógica. É por um encadeamento de informações que ele chega a uma conclusão. O caminho é aquele descrito pelas Racionalidades Médicas, ou seja, através de uma forma de pensar (Doutrina Médica), analisa-se o corpo e suas estruturas (Morfologia) e os seus devidos processos (Dinâmica Vital) para alcançar um diagnóstico (Sistema Diagnóstico) e uma estratégia terapêutica no intuito de solucionar a questão levantada (Sistema Terapêutico).

Vale ressaltar que a terapeutica mais conhecida da Medicina Chinesa é a acupuntura, mas não é a única forma de se tratar, as demais terapêuticas são: fitoterapia, massagem, práticas corporais e dietética. No total são cinco “feramentas” terapêuticas que pertencem a alçada da Medicina Chinesa.

Uma curiosidade sobre as terapêuticas é que o chinês antigo chama a acupuntura e a fitoterapia de “remédio” e normalmente as utilizam juntas. Já a massagem, práticas corporais e dietética, apesar de apresentarem um elemento muito importante na melhora das doenças, elas são muito associadas à manutenção da vitalidade do indivíduo, o que nomeamos de profilaxia e prevenção.

Afinal, o que é a acupuntura de fato? Ou melhor ainda, o que é a Medicina Chinesa? Nesse artigo, é possível responder essas duas perguntas:

Pertence a um sistema médico completo;

Possui um paradigma diferente do pensamento da medicina hegemônica (ocidental);

É embasado por um corpo teórico lógico;

Possuí uma história milenar;

É de origem chinesa.

E como que isso funciona? Durante um bom tempo as pesquisas buscavam entender como a acupuntura, especificamente, funcionava. É sabido do aumento da presença de endógenos opióiodes e serotonina ao estímulo das agulhas. Ambos incitam a inibição da dor, mas é muito difícil explicar o motivo das agulhas terem que ser aplicadas em áreas específicas, aquelas mapeadas pelos chineses, e não em qualquer parte do corpo. 

O segundo passo que a ciência deu foi analisar se a acupuntura funcionava levando em conta o tratamento das mais diversas doenças (exemplo: cistite, alergias, secura nos olhos, gastrite, etc) utilizando um sistema de grupo controle. As respostas são deveras sabidas entre nós, especialmente se já fomos tratados com a acupuntura, ou seja, as chances de sucesso são bem grandes, ao ponto da ciência afirmar a funcionalidade e eficácia da acupuntura.

Mas tudo ainda fica um pouco vago, não é mesmo? Posso dizer que fica em parte desconhecido. Lembra do paradigma? Pois é, no pensamento chinês tudo faz sentido e é explicado. Os chineses descrevem uma força que move o mundo e por fim a cada ser vivo e a batizam de (chi). Segundo a teoria oriental o é o fio condutor, é aquilo que potencializa o nosso metabolismo. Essa é a via mestra, a cereja do bolo. Adentrando um pouco mais neste pensamento, temos os meridianos (fios condutores que cortam o corpo, equivalente a nossa rede de veias e artérias) – podemos chama-los de “rodovias”.

Vamos dar espaço a nossa imaginação e pensemos que nós somos o , a nossa casa um órgão [como o coração], a avenida, rua, ruela são os meridianos, e o nosso trabalho é a área de atuação desse órgão (pele, músculos, etc). Se tudo flui bem a nossa casa cumpre um papel de abrigo, dormimos bem, comemos bem e estamos pronto para lidar com o dia a dia. Se tudo continua fluindo como deve saímos de nossa casa e vamos para o trabalho [a pé, de bicicleta, de carro, metro, etc], chegamos na hora certa e estamos aptos a cumprir nossa função. Trabalhamos e somos produtivos. Ao terminamos voltamos para casa.

Porém, sabemos que nem tudo segue seu fluxo adequado. Vamos levantar algumas questões:

  • Não dormimos nem comemos bem: isso significa que não estamos regenerados, estamos fracos, não seremos produtivos. Isso é o que o chinês chamaria de enfraquecido. Ele não consegue cumprir toda a sua função pois não teve suprimento necessário do mundo externo.

 

  • Uma segunda hipótese é que está tudo bem com a nossa casa (órgão), e conosco (), todavia, houve um terrível acidente no caminho e estamos impedidos de seguir adiante no ritmo normal. Está tudo lento. O está saudável, mas há uma interrupção, isso o chinês chamaria de estagnação. Existe uma dificuldade do em cumprir sua função e alcançar a zona desejada e isso cria um grande desconforto. O nome de desconforto no corpo chama-se dor/adoecimento.

 

  • Nesse terceiro cenário a casa, você e a avenida estão bem. Já no trabalho tem uma confusão, muita coisa para fazer, isso faz com que você não consiga processar as coisas adequadamente. A isso a “chinesada” chamaria de em perversão. Ou seja, existe tanto movimento descoordenado que não se sabe a função que se deve cumprir e tudo fica ao avesso. No corpo isso representaria refluxo e tosse, por exemplo.

 

  • E o último cenário e o mais terrível é se tudo estivesse em caos: casa (órgão), você (), avenida  (meridiano) e trabalho (pele, músculos, etc). Isso é o caso mais sério do movimento do que chama-se submersão. Existe um cansaço generalizado por tamanha demanda não cumprida desse corpo.

 

Vou recapitular tudo de uma forma bem resumida. O pensamento chinês entende que o é a força motriz do corpo, ela é gerada constantemente pelos nosso hábitos e tem uma função estabelecida no corpo que é veiculada através dos meridianos.

E como a acupuntura atua nisso tudo? Em chinês acupuntura chama-se zhēnjǐu, em uma tradução ao pé da letra seria metal e fogo. Isso significa que toda a técnica com metal [agulha] e fogo faz parte do escopo de ação da acupuntura. As mais conhecidas são: agulha, sangria, ventosa (a ventosa clássica é de vidro, bambu, chifre e é colocada com fogo), moxabustão (queima da planta artemísia vulgaris), auriculoterapia e cortina de fogo. Existem diversas outras técnicas, mas as citadas são as mais aplicadas.

Todas essas ferramentas são usada para mobilizar o e fazer com que o desconforto seja regulado (liberar o impedimento, tonificar o enfraquecido e abrandar o excesso), assim o princípio de autocura do corpo será coordenado e retomará ao seu funcionamento esperado levando a regeneração de todos os seus tecidos.

UNESCO

É justamente frente a tanta confusão que existe entre as diversas medicinas e olhares que a UNESCO, em 2010, salvaguarda a Medicina Chinesa e a Acupuntura como património cultural intangível da humanidade. O objetivo é: “… [uma] iniciativa de salvaguardar as teorias e as práticas da Medicina Tradicional Chinesa ameaçadas pelo processo de globalização e por tentativas de impor uma hegemonia do campo da medicina ocidental contemporânea sobre o campo da medicina chinesa”.

Organização Mundial da Saúde

A OMS publicou uma lista, que cresce a cada momento, das doenças tratáveis pela acupuntura, nas quais existem comprovações que reforçam tal decisão da OMS mostrando efetividade no tratamento. Algumas dessas desordens e doenças são: reação adversa à radioterapia e/ou quimioterapia, rinite alérgica (incluindo febre alta), cólica biliar, depressão (incluindo neurose depressiva), desinteria, dismenorréia (cólica menstrual), epigastralgia aguda (úlcera péptica, gastrite aguda e crônica, gastroespasmo), dor em fáscias, dor de cabeça, induzir ao trabalho de parto, dor no joelho, hipertensão essencial, hipotensão primária, leucorréia, leucopenia, e por ai vai… A lista é bem grande e toda ela sobre a chancela da OMS. 

Aspectos Conclusivos

Cada vez mais surgem novas pesquisas envolvendo a Medicina Chinesa nas suas diversas alçadas. A própria Fitoterapia vem ganhando cada vez mais espaço, especialmente pela facilidade de pesquisas e resultados positivos. Em uma pesquisa aleatória que fiz buscando o nome acupuncture no PubMed, em Outubro de 2019, apareceram 30.891 artigos sobre o tema com abordagens desde acupuntura para secura no olhos, até reposicionamento do feto no útero.

Apesar de me sentir feliz com tantas notícias sobre a medicina que admiro muito, penso que isso é apenas uma etapa. O fundamental é que os praticantes sigam os parâmetros pensados pelos chineses e os pacientes busquem um tratamento que seja igualmente fiel a isso. Pois é através dos milhares de anos de experiência que toda essa conclusão foi alcançada. É o conhecimento tácito que comentamos lá no início ao falarmos de ciência. A ciência da Medicina Chinesa é algo que está vinculado à vida e ao indivíduo resultando em uma sensação de bem estar mentecorpo capaz de promover um desenvolvimento harmonioso do ser humano.

Tudo isso fala de retorno à essência, de entender sua própria natureza, de sermos mais fiéis a nós mesmos. E se tudo isso for feito de maneira correta veremos mais e mais artigos científicos comprovando novas curas. Vejam bem, nós criamos a padronização da ciência a partir dos símbolos que consideramos adequados, mas a vida segue o rumo da natureza que nos cerca. É através do respeito à nós mesmos, entendendo que nosso corpo tem uma biologia própria, um sistema autônomo de regulação que obteremos a chave do sucesso. 

Nossa vida se curva à natureza que nos cerca, a medicina se curva à vida, a ciência se curva à medicina. É preciso manter essa ordem que é a ordem original das coisas.

Acredito que toda a sabedoria que vejo nos textos chineses chegam sempre ao mesmo ponto: somos seres coletivos sujeitos à crenças, moralidades, e sobretudo, ao mundo em que vivemos. Somos co-dependentes e nossos hábitos moldam nossas ações, por fim, nossa saúde e doença.

 

Bibliografia:

GOLDSCHMIDT, Asaf. The Evolution of Chinese Medicine: Song Dynasty, 1960-1200. London and New York: Routledge Taylor & Francis Group, 2009.

LUI, Zheng Cai et al. A Study of Daoism Acupuncture&Moxibustion. Blue Poppy Press, 1999.

LUZ, Madel. Cultura Contemporânea e Medicinas Alternativas: Novos Paradigmas em Saúde no Fim do Século XX. Physis: Revista Saúde Coletiva, p. 147-176. Rio de Janeiro, 2005

MACIOCIA. Giovanni. Os fundamentos da Medicina Tradicional Chinesa: um texto abrangente para acupuntura e fitoterapeutas. 2 ed. São Paulo: Roca, 2007

Acupuntura: Patrimônio Cultural Intangível da Humanidade pela UNESCO. Disponível em: <http://crbm1.gov.br/acupu_unesco.pdf>. Acesso em: 01 de Outubro de 2019.

WHO Disponível em: <https://www.acupuncture.org.uk/public-content/public-traditional-acupuncture/4026-who-list-of-conditions.html>. Acesso em: 01 de Outubro de 2019.