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Convergências: Medicina Chinesa/Acupuntura e Contrologia

Convergências: Medicina Chinesa/Acupuntura e Contrologia

Revista Medicina Chinesa Brasil, Ano IV, n.12

Por Matheus Dias Almeida

“O saber a gente aprende com os mestres e com os livros. A sabedoria, se aprende com a vida e com os humildes”.  Cora Coralina

A medicina chinesa/acupuntura (MC), tal como apregoa Cora Coralina, estuda a vida no seu pulsar. O pensamento chinês advém da sabedoria do seu povo. Não resulta do acúmulo dos conhecimentos para construção de uma “história filosófica” como em outras culturas. É mais do que uma filosofia. Não tem uma história cronológica, não tem início e, portanto, não teria nem meio nem fim como aponta Jullien (2008).

Por isso o chinês busca compreender o mundo a partir de uma concepção prática e não por uma ordem mais conceitual. Ao invés de se preocupar em responder perguntas ou conceituar objetos, ele se interessa por entender os seus processos pelo dinamismo da vida.

Isto significa que é uma tarefa árdua tentar determinar onde teve início a MC. Dados históricos apontam sua origem em 2100 a.C, na Dinastia Xia porque são, deste período histórico, vários vestígios de práticas que subsistiram, até hoje são utilizadas e por isso mesmo estudadas. Naquela época observaram que o calor do fogo trazia alívio às dores, e isso levou ao surgimento da moxabustão. Trata-se da planta artemísia vulgaris seca, com a qual o acupuntor escolhe um determinado local e a queima para esquentar e propiciar conforto. Outra prática é a da planta na água morna liberando um sabor em conjunto com uma substância ativa que fez surgir a fitoterapia ou farmacopeia chinesa. Outro exemplo é a pressão em pontos aleatórios do corpo que aliviava dores em regiões reflexas, nascendo a massagem chinesa conhecida como TuiNa. Há ainda o uso de objetos cortantes e perfurantes em áreas do corpo que faziam desaparecer as doenças e que ganhou o nome de Acupuntura.

Durante aproximadamente 2000 anos (2100 aC – 206 aC) foram estudadas e analisadas todas as informações que surgiram a partir de vários praticantes. Na Dinastia Han (206 a.C. – 200 d.C.) foi compilado o primeiro cânone da medicina chinesa chamado O Livro de Medicina Interna do Imperador Amarelo, dividido em dois livros: Questões Simples e Eixo Espiritual. A autoria do livro é desconhecida, mas foram identificadas anotações de diversos autores e até hoje é usado para a prática clínica. O clássico, como é chamado o primeiro livro de MC, apresenta conceitos e uma teoria irrefutável através de seus resultados que nasceram das mãos habilidosas de muitos práticos. O chinês aprendeu a olhar, palpar, questionar, cheirar e ouvir sendo o pilar da semiótica chamada: As 4 Diagnoses.

Através dos tempos grandes nomes surgiram trazendo elaborações e interpretações apuradas do Clássico de Medicina Interna como um famoso médico chamado Zhang Zhongjing, na época dos 3 Reinos (220 d.C – 265 d.C.), que contribuiu com avançadas concepções. A história da China é milenar e de uma riqueza profunda, mas o intuito desse artigo é apenas situar o leitor para as possibilidades do seu diálogo com a Contrologia.

Contrologia é um método criado pelo Joseph Pilates, com base num trabalho corporal diferenciado e único composto por um hibridismo natural. Considero que o método vem a ser uma mescla de conhecimentos que deram origem a um conceito e uma série de atividades físicas que, a meu ver, reúne fundamentos da medicina oriental e da fisiologia humana.

Pilates iniciou seu trabalho por uma descrença médica sob sua doença clínica de raquitismo, asma e febre reumática. Tornou-se ativo em seu processo de cura. Sua “terapia” surgiu de maneira vivencial, nascendo das necessidades do criado e sendo aplicada aos demais praticantes também através das necessidades individuais.

Reconheço, e essa foi minha inspiração para este artigo, que a aplicação da Contrologia e da MC assimilam-se no princípio da individualidade que respeita o traço de cada indivíduo.

Medicina Chinesa/Acupuntura

A MC vem crescendo cada vez mais no mundo moderno, sendo muito procurada para tratar diversas enfermidades. A acupuntura é parte integrante da Medicina Chinesa. Outras ações terapêuticas que se enquadram nas “ferramentas” usadas por esta medicina são: massagens, práticas respiratórias, exercícios, tratamento com ervas, aquecimento de ervas em pontos de acupuntura, dieta e as meditações que variam de acordo com a pessoa e com o sintoma. Todas essas práticas terapêuticas são regidas pela Doutrina Médica da MC e seguem uma mesma lógica.

Muitas vezes surgem dúvidas sobre até onde a MC pode alcançar no tratamento e, até mesmo, o que tratar. Segundo Luz (2000) há pelo menos 5 diferentes práticas médicas e a medicina ocidental, chamada pela autora de biomedicina, é considerada uma prática médica hegemônica no ocidente, mas jamais a única prática considerada medicina.

Para ser “catalogada”, digamos “oficializada”, como um saber médico ou uma prática médica são exigidos 06 pontos-chaves conhecidos como as 06 dimensões: cosmologia, morfologia, doutrina médica, dinâmica vital, sistema diagnose e sistema terapêutico. Não cabe refletir sobre qual é a melhor ou a pior medicina, nem esse é o objetivo deste artigo. Todos os saberes médicos são frutos do trabalho duro da inteligência e sabedoria da humanidade como construtora do conhecimento coletivo. Ambas têm seus méritos e suas dificuldades. O mérito da MC é sem dúvida entender a dinâmica da vida humana e retomar sua própria fisiologia, seja esta uma sinusite, uma dor no quadril ou uma insônia. Nas palavras de Laozi (precursor do Taoísmo): “adube o campo que a natureza faz o resto”.

A MC não foca na doença e sim no indivíduo que sofre com a doença. O trabalho de um acupuntor é retomar o balanço corporal. A capacidade da autocura e a extinção do sofrimento. Quando uma pessoa é posta antes da doença nos aproximamos da sua humanidade, dos seus aspectos objetivos (queixas específicas) e dos aspectos subjetivos (sensações e percepções) na busca de acessar o Ser para um tratamento integral.

Qual seria o limite para o tratamento com a MC? O limite seria o próprio paciente. Se primeiro observa-se o paciente sofredor para depois analisar a doença que o faz sofrer, é possível compreender que é o próprio indivíduo que limita ou não sua própria cura. Como já explicado, a prática médica chinesa busca uma organização corporal para que o homem se liberte do sofrer. O papel do acupuntor, contudo, seria de alinhar o organismo seguindo sua função mantendo o alinhamento com sua individualidade.

Todo aluno e/ou praticante da MC estuda de forma aprofundada o corpo e a manutenção da vida. Fisiologicamente observamos uma “substância vital” chamada que representa nossa animação diária advinda do ar que respiramos e do alimento que comemos. O influxo do ar chama-se Dàqì (grande ) ou Kōngqì ( do ar) que é captado pelos pulmões e consegue dar força a nossa voz, ao nosso sistema imune, a nossa disposição. A nutrição da comida chama-se Gǔqì ( do alimento) ou Yīngqì ( da nutrição) e é através dele que nosso sangue se forma, nossos tendões são bem nutridos, nossas faculdades mentais ativadas.

Uma terceira grande fonte de animação, e não menos importante, é o que o chinês chama de Yuānqì ( original) esse herdado do pai e da mãe e que nos vai aproximar à nossa genética.

Uma boa respiração, uma boa alimentação e hábitos de vida pró-vida (sem excessos) nos leva a encontrar a longevidade livres dos males que assombram o corpo e a alma.

Dāntiān 丹田

No pensamento chinês existe 3 estruturas que chamamos de Dāntiān, sendo Dān 丹 traduzido como Pílula e Tiān 田 como Campo. Um campo fértil onde temos uma pílula, a grande pílula que cura todos os males, a fonte interna de transformação. A cura, assim sendo, é encontrada no interior de cada ser.

Através da respiração adequada, regulada, ritmada podemos armazenar uma grande escala de (força animadora) nos nossos centros Dāntiān, onde há um favorecimento do corpo pró-vida. Regulemos nossa respiração e podemos ajudar a regular nossa vida.

Um velho sábio chinês falou: “para a saúde do corpo basta o exercício, para a saúde emocional basta a serenidade”. A prática de uma atividade física como a Contrologia e/ou a meditação é importante, pois são duas grandes formas de regularmos nossa respiração.

Os 3 Dāntiān são divididos em superior, médio e inferior. O Dāntiān inferior é o que conseguimos armazenar, uma grande quantidade de , o regulador do eixo vertical do corpo. Situa-se 4 dedos abaixo do umbigo. Para o chinês podemos perder qualquer coisa exceto nosso centro, nosso eixo. Focar no Dāntiān inferior durante as práticas de atividade física é crucial para um bom desenvolvimento corporal.

Meridianos

A morfologia estudada pela MC é quase que em sua totalidade o entendimento dos meridianos.

Os meridianos agem como se fossem trajetos, rios, rodovias, algo que tem um princípio, um fim, possui uma capacidade de influenciar os locais por onde passam. Para a MC o que chamamos de circula por esses meridianos. Sua origem são os órgãos e vísceras que como uma planta trepadeira cresce para os braços e pernas influenciando determinadas regiões com a essência dos órgãos que os originam. As vezes ouvimos um acupuntor dizer que tratará o intestino grosso e coloca uma agulha no braço, ou ele diz que o problema é o fígado porque há uma aspereza ou uma flacidez em uma dada região interna da perna.

“Tudo que está no interior manifesta-se no exterior” assim diz o clássico. Inspecionamos as manifestações nos meridianos para entendermos os órgãos e as vísceras.

Se compreendermos que com a respiração e com a alimentação fortalecemos nosso , agora podemos entender que esse circula nos órgãos e manifesta-se nos meridianos. Quanto maior a quantidade e qualidade do melhor ele fluirá nos meridianos e a musculatura ficará mais forte, mais flexível, mais dinâmica, mais adaptável, assim como a textura da pele, do cabelo, do brilho dos olhos, o funcionamento individual e coletivo de cada órgão será uniforme.

Quando adoecemos identificamos que há um desconforto corporal. Para a MC esse desconforto chama-se estagnação. Trata-se de um local onde há uma dificuldade do fluir pelos meridianos influenciando ou não a função de um órgão ou víscera. A função da acupuntura, por exemplo, é organizar esse fluxo, retomando a normalidade dentro do princípio da individualidade. Cada corpo tem sua impressão, sua individuação que segundo Jung é a ação individual que cada um de nós tem para conosco mesmo, com nossa própria vida. Por sermos próprios e únicos devemos ser tratados como indivíduos, como seres humanos com toda nossa objetividade e subjetividade que envolve os processos de saúde e doença.

Integralidade

Um dos conceitos mais em voga no mundo contemporâneo é a integralidade ou o holismo. Holismo etimologicamente vem do grego holus significando a totalidade, o todo. Jung, no prefácio do I Ching (2006) traduz bem a integralidade: “devemos observar tudo a nossa volta, cada detalhe que compõe o todo”.

O ser humano é uma estrutura biológica que possui consciência, impressões, vivências, histórias e não pode ser “esquartejado”. Não é apenas um ombro ou um baço, ou uma cabeça, é tudo isso e, além disso, é um porvir. O homem é tudo o que seus órgãos do sentido alcançam e o que suas percepções compreendem dentro de seus limites.

Não negligenciemos os especialistas superespecializados que encontramos hoje, mas não nos limitemos às especialidades se somos um conjunto. Perdoem-me os céticos, mas se o seu ombro está “grudado” no seu corpo, o seu ombro é influenciado por todos os processos corporais, seja psíquicos e/ou físicos.

Há sempre a liberdade de ignorarmos os sinais dados pelo corpo. Seja por algum acontecimento que preferimos esquecer, seja simplesmente por algo que preferimos não assumir, especialmente quando falamos “deixa pra lá” ou “isso passa”… nem sempre passa. Como diz Jung (2008), não é porque o carro virou a esquina e não podemos mais vê-lo, é que o carro deixou de existir. Toda e qualquer informação, sensação, percepção que temos deixa memórias corporais e subconscientes. Estamos em um momento propício de deixarmos de dizer “isto é do corpo e isto é da mente”. É urgente começarmos a pensar “isto” é do corpo-mente.

Convergências

É muito claro para mim, como acupuntor, praticante de Kung fu e, também, da Contrologia reconhecer as relações existentes entre essas diferentes práticas corporais, tanto nos seus aspectos históricos, quanto empíricos e conceituais. Considero que há muitos pontos de diálogo entre o método Pilates e o pensamento Chinês.

O que chamamos de pensamento chinês é todo e qualquer forma de raciocínio elaborado e orientado pela cultura e a maneira em que inicialmente o chinês, e posteriormente todos os demais países que seguem o paradigma da MC, entende a dinâmica do corpo/vida.

Assim como no surgimento da MC, o método Pilates também foi se constituindo pela experimentação e pela propagação de sua prática, sem qualquer preocupação inicial com conceituações e registros. O foco era atuar e contribuir com próximo através de uma prática diferenciada onde cada corpo respondesse a partir de sua própria forma porque orientado por suas únicas impressões pessoais e intransferíveis. Por conta desse processo de transmissão, cada discípulo, no caso do Pilates, escreveu, ainda que de forma tímida, os conceitos elaborados por esse grande mestre, mas de maneira diferenciada conforme suas próprias experiências, formação e conhecimentos anteriores.

Vejo numa dimensão diferente, mas de forma semelhante que a MC através do desenvolvimento de seus pilares e princípios deu abertura e possibilidades para o surgimento de ramos, escolas e distintos pensamentos práticos guiados por uma via, por um conceito principal. Tratava-se de um conhecimento muito fechado que circulava entre os clãs, as famílias e transmitidos pela oralidade dos mestres aos seus discípulos. Mesmo quando os orientais chegaram ao Brasil eles mantiveram por anos a MC selada em suas tribos.

Abandonando as considerações mais gerais, percebo de forma muito clara dois fundamentos básicos presentes tanto na Contrologia como na MC e que são importantes para a saúde e equilíbrio do homem. Um é a força de centro e outro é a respiração. A força de centro equivale ao entendimento do Dāntiān e a respiração, como já referido acima neste artigo, é a base para um corpo saudável no prisma da MC.

Outros pontos que relevo como presentes no diálogo das referidas práticas são a retomada do equilíbrio corporal, a capacitação para a autocura, a ativação do e a busca pela extinção do sofrimento.

Finalmente considero que a MC apesar da sua força curativa vista e assumida nos dias atuais, até pelos médicos mais céticos, é mais preventiva do que curativa. Já o Pilates, apesar de hoje ser visto como uma prática terapêutica, eu considero que também é mais preventivo do que curativo. Identifico, ainda, que as práticas que prezam o homem como um ser integral são práticas preventivas e buscam uma vida longa. Sem dúvidas esta é uma marca dessas duas teorias/práticas.

De fundo histórico, práticas e conceitos similares, cada uma compondo o seu campus de atuação e aplicação, vejo uma consonância importante que surge entre ambas: cuidar da dinâmica do corpo, “acariciar o corpo” e incentivar seus processos de desenvolvimento. Quando “acariciamos nosso corpo” ele devolve o carinho, quando o enfrentamos ele nos enfrenta de volta.

Os gastos na “saúde” são cada vez maiores, pois há um foco muito grande na “entidade” doença. Não se previne e, quando muito, se detecta precocemente algo. Todo e qualquer tratamento sobre a doença é dispendioso e urgente. Todo e qualquer tratamento sobre a saúde é barato e ainda tem a beleza do bem estar e de uma vida longa. Longa e saudável! Mas isso não é o que em geral acontece porque a medicina avançada mantém a vida a qualquer custo e na busca incessante da doença, acaba por tratar só a doença se esquecendo do bem maior que é a saúde.

Para finalizar relembro que Pilates buscava um corpo flexível e ágil. E Lao Tse dizia que o duro é sinônimo da morte, do velho e o novo é sinônimo de tenro e saudável. Contribuindo para este diálogo peço: Sejamos flexíveis! Busquemos saúde!

 

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