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O Câncer e o medo. Um olhar oriental.

O Câncer e o medo. Um olhar oriental.

Revista Medicina Chinesa Brasil, ano VI, n.17

Por Matheus Almeida

Olhamos para a morte como uma dama misteriosa e temível. Ao menos no ocidente, o falecimento do corpo é um tabu e justamente por isso não nos preparamos bem para o destino mais certo de todos os seres vivos.

Rubem Alves diz que assim como há uma preparação para o ser que nasce deve-se amparar igualmente o ser que fenece.

“O maior medo do ser humano é a morte, a falência da vida, a desclassificação como ser humano, a negação do direito de existir e a extinção das relações como família. Ela é a origem do medo” (KIKUCHI, 2004)

É nesse ritmo que essa doença se torna cada vez mais temida  por todos, é algo que traz um peso social, pessoal, familiar, é o marco da impotência humana e da sua finitude.

Se formos no site do INCA veremos a explicação do surgimento do câncer como células que se multiplicam anormalmente. Dessa mesma forma encontraremos nos livros de medicina. Acompanhado dessa explicação surgem diversas perguntas: por que isso acontece? Quais são os fatores que causam isso? O cigarro certamente, mas e os que não fumam? Muitos pontos sem saída de olhares estreitos.

Vejam bem, de uma forma muito rápida descreverei a ação terapêutica da medicina ocidental: ou o profissional medica ou opera. É dessa forma que o médico é ensinado nas faculdades. Para isso não há falha do profissional. Há um longo aprendizado para ver-se as partes, os nichos, o fígado ou o baço, o ombro ou joelho. Há os médicos que falam sobre alimentação, e outras terapêuticas mais, se ele o faz parabéns para ele e sorte sua em estar com este profissional pois ele o faz através do percurso da sua experiência ou por ter caminhado em outros caminhos da medicina fora da academia, e este sabe observar o corpo.

Como se atua no câncer? Se atua igual a um caso “simples” de gastrite. O que quero dizer é que o câncer é produzido por um sistema inteiro doente e o médico busca um nicho. Se o tumor está no estômago vê-se somente o estômago igual a um caso de gastrite. Se esquece o resto ou nunca se aprendeu a olhar o restante do corpo.

“Quando procuramos a origem, prevenção e tratamento do câncer pela medicina atual, não encontramos nenhuma resposta, nenhuma solução e nenhuma esperança. pelo contrário, quase 80% da totalidade dos casos de câncer parece originar dos próprios processos de exames e de tratamentos violentos da medicina” (KIKUCHI, 2004)

Muitos médicos ao longo da história, todos renegados pelo olhar científico, diziam: se o câncer é uma doença que envolve todo o corpo como podemos analisar e tratar somente um sítio?

Devemos respeitar a ordem fisiológica e biológica de um indivíduo, um fígado não atua e nem sobrevive sem um coração, um pâncreas, um pulmão e menos ainda se não houver um meio ideal (o corpo).

Os chineses antigos na sua sabedoria diziam sobre a importaria da observação micro macrocosmos. Um exemplo de um sistema é o sistema familiar. Quando um ente querido está vivenciando uma doença progressiva e degradante, não é só o doente que sofre, mas todos os membros que tem uma ligação com esse indivíduo e em igual escala esses membros ajudam em cooperação para sanar o “mal” daquele que carrega a doença. Exatamente dessa forma é o corpo, se um fígado adoece, todo o sistema busca ajuda-lo e sofre com isso, assim, da mesma forma que numa família todos os componentes devem se tratar e se ajudar.

“A busca de apoio medicamentoso forte para a cura do câncer é o mesmo que depender da força nuclear para acabar com a guerra”(KIKUCHI, 2004).

Vivemos em uma sociedade doente que não pára para olhar sua doença. Nossos corpos estão inflamados, assim como nossas vidas, nossos corpos estão ácidos, assim como nossas vidas. O câncer é uma doença que surge através de uma irritação corporal, ou seja, um corpo que se lesiona múltiplas vezes. Por exemplo, se você tiver uma verruga e ferir várias vezes sem dar chances de curar completamente ela se transformará em um câncer de pele. Em mesma escala nosso alimento e o uso abusivo de medicamentos machuca nosso corpo, irrita-o e por fim cria-se o câncer. Muitos autores dizem que o câncer é uma doença iatrogênica, quer dizer, provocado pelos medicamentos.

Além das causas medicamentosas e de uma má alimentação, de hábitos de vida que buscam uma auto-destruição, falta de sono, bebida alcoólica, uso de outras drogas mais lícitas ou não lícitas. Não podemos deixar passar desapercebido como o câncer é um acerto de contas final face ao apego, à gulodice, à ostentação, ao abuso, ao desregulamento, ao mundialismo, à ingratidão, à dependência, à unidimencionalidade (KIKUCHI, 2004).

O câncer é o resultado da ausência de si próprio. A pessoa não se preocupa consigo mesma, mas somente com o ambiente externo, apenas.  Qualquer resultado consequentemente é fruto de sua própria obra, é o resultado de sua capacidade.

Nossas doenças são nosso cultivo. Desvendando a nós mesmos desvendamos a nossa potência de cura. Células se renovam diariamente, proporcionando chances diárias de mudança ou de nos mantermos da mesma maneira.

A Medicina Chinesa, no capítulo primeiro do Sù Wèn (Cânone da Medicina), diz que as mulheres se renovam de 7-7 anos e os homens de 8-8 anos. Recentemente a medicina biológica provou que em aproximadamente 7-7 anos todas as células do corpo se transformaram inteiramente, ou seja somos outro. Em chinês mandarim corpo chama-se Shèn 身 que  representa pictograficamente um homem grávido, ou seja, um homem gerindo a si próprio, criando seu novo “eu”.

Gostaria de apresentar alguns dados: a incidência do câncer nos intestinos são: 0% no Duodeno; 0,4% no Intestino Delgado; 27,3% no Cólon; e 72,3% no Intestino Grosso. Interessante notar que essa relação é exatamente o tempo em que o alimento leva em cada uma dessas estruturas.

Um tratamento efetivo para o câncer é o fortalecimento do corpo e de todos os órgãos internos e externos estimulando a capacidade de auto-cura do organismo.

Dentro dessa misteriosa etiologia do câncer surge o medo em nossos corações. Sei que é muito difícil decidirmos qual o tratamento adequado e por onde caminhar. Estamos cheios de inseguranças porque somos inseguros de nós mesmos.

O que a Medicina Chinesa pode oferecer? Depende da expertise do acupuntor mas também do indivíduo que busca a ajuda. Por exemplo, para o paciente que somente busca alívio dos efeitos colaterais da quimioterapia/radioterapia, ou o paciente que busca regular seu corpo com uma nova dieta, chás, exercícios respiratórios (Qìgōng, Tàijǐ Chuán), e por fim há aqueles que saem do tratamento convencional e se tratam com outras terapêuticas das diversas medicinas que existem como a Chinesa, a Ayurveda, Antroposófica, Biológica, etc.

Para a Medicina Chinesa o diagnóstico é a chave, e o câncer é um termo genérico chamado acumulação Liú 瘤 com a capacidade de invadir tecidos vizinhos. Qual é a visão chinesa para tais condições de tumores? Já era discutido na Dinastia Shang (1766 aC até 1122 aC) tanto as causas quanto o tratamento. Os tumores são entendidos como uma estagnação de QI (dinâmica vital/força vital) que leva a uma estase de sangue, ou seja, uma lentidão do corpo que gera múltiplos desconfortos. O corpo demonstra sinais que podemos antecipar o caso de câncer onde observa-se distúrbios anteriores dos órgãos e vísceras (GASCOIGNE, 2009). Uma outra causa encontrada é a dificuldade de fluidez dos líquidos corporais, gerando acumulações, fleuma e por fim tipos de acumulações tumorais. Uma vez que para o chinês nem toda acumulação é tumoral, mas é sempre um prenúncio desta.

O Dr. Massaru Kume, presidente do centro de pesquisa nacional de câncer no Japão, publicou uma série de pesquisas sobre o estado pré-canceroso de mil casos de câncer estomacal. O estado pré-canceroso é um termo usado para situações de doenças que surgem antes do câncer, o estado de saúde prévio do paciente. Isso se encaixa muito bem com o olhar da Medicina Chinesa sobre as desorganizações corporais. Vejamos os dados do estudo:

43% dos cânceres eram provenientes de úlcera estomacal

39% dos cânceres eram provenientes de gastrite crônica

18% de polipose intestinal (surgimento de pequenas “verrugas” na parede intestinal)

Observamos como damos pouca importância a doenças ditas “comuns”, ou seja, doenças corriqueiras onde o paciente verbaliza como normal. Se o corpo não está bem ele sinaliza, se não damos atenção ele aumenta esse alarme, é onde nos vemos em condições de piora e/ou evolução/mutação da doença.

Interessante notar que na área da saúde o que menos se fala é da saúde em si. Reconhece-se as doenças, fala-se das doenças, e como não se identifica-se a saúde essas doenças são controladas. Será mesmo que doenças como câncer, hipertensão, diabetes não podem ser curadas? Por que há somente controle por toda a vida?

Devemos estar mais atentos a nosso corpo, escutar mais suas mensagens, cuidar da nossa saúde e isso tem um nome, chama-se prevenção. Chamo atenção que prevenção não é ir no médico fazer check up, isso é muito importante, mas não é prevenção é análise do quadro atual, uma fotografia. Prevenção é quando nós percebemos cansados, por exemplo, e descansamos, quando o sono está ruim e buscamos nos acalmar para conseguirmos dormir, quando a urina não está límpida e bebemos mais água. Isso evita doenças, nosso corpo nos traz informações relevantes quanto ao nosso estado, cabe a nós detecta-los.

Há uma frase no livro Arte da Guerra que diz: “o indivíduo despreparado espera ter sede para cavar um poço, espera a guerra começar para fundir a arma”.

Caso você não tenha tempo para sua saúde terá tempo para a doença. Sejamos espertos. Na vida não há fórmulas mágicas, mas sim atenção e cuidado. Tenha atenção em você hoje, tenha cuidado com você hoje.

BIBLIOGRAFIA

KIKUCHI, T. Autocontroleterapia: Transformação Hemeostásica pelo Tratamento Independente. Russo Publicações. São Paulo, 2004.

ALVES, R. O Médico. Papiros, 8 ed. São Paulo, 2009.

WU R.S., WANG H.T., HUANG, Y. Arte de la Guerra de Suzi aplicado a la Conservacion de la Salud y el Tratamiento de Las Enfermedade. Editorial Nuevo Mundo. Beijing, 1997.

GASCOIGNE, S. Cancer. Journal of the Association of Tradicional Chinese Medicine (UK), Vol 16, issue n. 01, March 2009.

NOLFI, K. O Milagre dos Alimentos Vivos. Editora Taps, 3 Ed. Florianópolis, 2009.

www.inca.gov.br