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Abordagem da Acupuntura na dor: um processo holístico.

Abordagem da Acupuntura na dor: um processo holístico.

Revista Medicina Chinesa Brasil, Ano VII, Vol. 20

Por Matheus Almeida

O budismo diz que viver é sofrer, o taoísmo complementa que sofremos porque temos um corpo. A dor é algo que definitivamente faz parte da vida, quem nunca teve uma dor que levante o dedo.

Quando me refiro a dor falo de todos os tipos de dores corporais, do osso ao coração. Essa dor que tanto nos amedronta faz parte do processo inerente da vida, e segundo os chineses a vida é um constante processo de adaptação, nos adaptamos às condições climáticas, ao alimento, às pessoas…

Cada um sofre em um tom, devemos respeitar o processo de sofrimento de cada indivíduo, mesmo que não o entendamos. Cada um apresenta um limiar de dor, cada um apresenta uma reação sobre a dor. A isso não cabe nenhum tipo de julgamento.

Mas afinal como essa tal de ciência explica o processo da dor? Segundo a Associação Internacional do Estudo da Dor é “uma sensação e experiência emocional desagradável associada com o atual ou potencial dano tecidual”. É a relação dos receptores de dor (nociceptores) juntamente com outras percepções determinadas pelas variações de atividade neurosensoriais, atividades comportamentais e fatores psicológicos”.

Apesar dessa explicação tangenciar o ponto de vista da Medicina Chinesa quando cita os “fatores psicológicos” relacionados à dor, questiono por que a visão científica usada pelos profissionais da saúde é tão objetiva, ao ponto de não aprofundar-se  plenamente no estado afetivo de seus pacientes, privilegiando sempre a estrutura anátomo-clínica quase que ignorando o indivíduo em toda sua totalidade que está a sua frente. E o pior é que por sua vez,  esses pacientes, muitas vezes, se habituam a esse tratamento e eles próprios ignoram seus estados emocionais e buscam algo palpável (ou científico) no trato dos seus sofrimentos.

Em média 70% das pessoas que buscam um consultório são ditos pacientes funcionais, ou seja, pessoas que apresentam algum tipo de dor ou desconforto, onde não há qualquer alteração em exames complementares, seja por imagem ou análise sanguínea.

A Medicina Chinesa observa de perto a dor e o estado emocional do seu paciente ao ponto de constar em um de seus cânones a seguinte frase: “fora de qualquer perversão externa é falha grave do médico de ignorar o estado afetivo de seu paciente”. Encontro pacientes que muitas vezes não entendem o por que de sua dor, uma vez que vem buscando todo tipo de tratamento possível e continuam sofrendo, questionando por que medicamento não funciona ou não há um diagnostico claro, e caso haja, por que demora-se tanto para ficar curado ou aliviado?

Antes de me aprofundar nesse ponto vou elaborar melhor o que a Medicina Chinesa/Acupuntura teoriza sobre a dor. Em vários outros artigos elaboro o conceito de 气 (sopro, dinâmica vital, elã vital) que é a válvula mestra do pensamento chinês. O é tudo que move nosso corpo desde o caminhar/deambular até o próprio pensamento.

Esse circula no que o chinês chamou de Meridianos Jīngmài 经脉 sendo considerado uma trama que conecta todo o corpo, se assemelha, em imagem, ao sistema venoso e arterial. Dentro do processo de adaptação, diz-se que é com a ajuda dos meridianos que o copo se adapta, pois é uma rede entrelaçada sendo vista como uma “entidade viva” dentro do nosso próprio corpo. Os meridianos são também considerados como uma via de passagem, onde a dinâmica da vida circula. E por fim, também podem ser considerados áreas de comunicação, como um sistema altamente capacitado conectando toda e qualquer parte do corpo uma com a outra.

A Medicina Chinesa também diz que os meridianos se vinculam aos órgãos e vísceras e se manifestam no exterior do corpo (pele) e interior (órgãos e vísceras) fazendo assim um contato exterior/interior. O meridiano é como se fosse um ramo do órgão. É muito comum irmos a um acupunturista com uma dor no pescoço e ele dizer que precisamos tratar nosso Fígado, estranho? correto! pois partindo desse ponto de vista, o meridiano do fígado e da vesícula biliar passam pela cervical, uma vez esse meridiano comprometido pode comprometer o órgão de origem e vice-versa. Mas calma, nesse caso não precisamos correr para o médico para saber se estamos com algum grave problema hepático, ao menos não agora.

Os chineses observam o corpo como uma entidade viva, e isso é muito importante distinguirmos, pois a medicina ocidental foi criada basicamente através da análise do corpo morto, ou seja, se pauta na estrutura anátomo-clínica, da forma que citei no início desse artigo. Na China também houveram necrópsias, mas primeiramente eles identificaram o ser em estado vivo e suas variações. Assim podemos dizer que a Medicina Chinesa é uma medicina funcional e a medicina ocidental é estrutural. Esse conceito é crucial para entendermos como funciona a Medicina Chinesa, pois muitas vezes dizemos que o paciente apresenta um problema no fígado, ou baço, ou rins. No olhar médico chinês isso significa que esses órgãos apresentam uma disfunção, inicialmente não estrutural, porém se mal cuidada ou ignorada posteriormente pode tornar-se uma disfunção estrutural.

Vamos exemplificar todo esse falatório difícil para nossas mentes ocidentais de causa e efeito. Um paciente vai ao consultório com uma queixa de uma dor no estômago, refere-se dor após alimentar-se, há dor ao tocar a área abdominal relativa ao estômago, porém na endoscopia ou outros exames complementares não há qualquer alteração. Para a Medicina Chinesa, no entanto, pode haver uma grave disfunção no estômago. Serei ainda mais sutil. O paciente apresenta uma dor de cabeça frontal após alimentar-se. Também nesse caso para a Medicina Chinesa esse indivíduo pode apresentar uma disfunção no estômago, mesmo que todos seus exames sejam perfeitos. Quero ainda abusar da sutileza chinesa. O paciente tem dificuldade de dormir, pois quando se deita não consegue pegar no sono e quando dorme é sempre por volta de 1h da manhã, pois pensamentos o assolam o tempo inteiro. Esse paciente tem uma disfunção no estômago.

A via de desorganização pode vir dos hábitos de vida, dos fatores climáticos ou de nossas emoções. E no processo do sofrimento há um envolvimento conjunto de todo o organismo corpo/mente do indivíduo que sofre. O que chamo a atenção com esse artigo não é de ignorar a dor, ou a área fisicamente lesada, mas de não ignorar todo o conjunto da dor/sofrimento. O indivíduo que pensa sobre o seu sofrer físico e busca elaborar interiormente o que está se passando com ele acelera, definitivamente, a sua melhora. Pois ele não ignora e nem supervaloriza a sua doença, mas busca meios de transformação, meios externos (acupuntura, fitoterapia, fisioterapia, medicina ocidental, etc) e meios internos (auto-reflexão, psicoterapia, etc).

Como nosso tema é sobre a acupuntura e a sua efetividade na dor, e agora entendemos que o acupunturista trabalha nos meridianos de acupuntura podemos falar a respeito dessa dor propriamente dita. Vamos a um exemplo clássico de uma torção do tornozelo. Um dano físico, considerado trauma físico, lesionando estruturas ligamentares, no qual, em um tratamento tradicional coloca-se gelo, imobilização e antiinflamatório, em um tratamento mais avançado se faz compressão, movimento e  medicamentos antiinflamatórios. Na presença de uma lesão física localizada, esse tal de meridiano que circula a dinâmica vital e conecta todas as estruturas do corpo também foi lesado, uma das vias de passagem foi comprometida e cria-se um termo chamado estagnação (uma tradução aproximada do termo 郁 em chinês). O tratamento não bloqueia o movimento, mas busca retomar a fluidez de algo que não está plenamente fluido. Qual é o objetivo das agulhas? Desbloquear ou redirecionar o caminho do permitindo que o corpo acelere a cicatrização do local. Lembrem que nos meridianos flui tudo o que é importante para o corpo. Uns dizem que a acupuntura estimula uma pequena inflamação local através de estímulo nociceptor (estímulo de desconforto) que estimula mais células de reconstrução para a área lesionada, assim como células de colágeno. Esse pensamento é até interessante mas não é  apenas dessa maneira que a Medicina Chinesa elabora  a sua terapêutica. Apesar de diferente e as vezes visto de maneira exótica, o pensamento chinês sempre é simples, por isso efetivo. Deve-se potencializar o corpo e direcionar essa potencialização para restaurar a área lesada. Simples assim.

Contudo trabalhamos com o que o paciente tem a nos oferecer, ou seja, dentro da qualidade do de cada um. Essa qualidade envolve o quão bem esse indivíduo trata a si mesmo, bons hábitos de vida (estilo de vida). Um bom corpo é um corpo responsivo, quer dizer, que tem uma reação aos estímulos dados. A velocidade de ação frente a um estímulo bom ou ruim se refere ao quão “limpo”, depurado está esse corpo. É como um copo de água transparente e um de água turva, no da água transparente quando cai uma sujeira você a percebe, no de água turva essa mesma sujeira se camufla e não mais podemos identifica-la. Em um corpo depurado as respostas terapêuticas são muito mais rápidas, no que está “poluído” devemos “despoluir” e depois buscar a fonte do problema.

Como sempre digo, somos mestres de nós mesmos. A cada ação tomada uma reação virá, sem méritos de ser bom ou ruim, ela simplesmente virá. Espero que com esse artigo, você leitor, aprimore essas novas informações e novas percepções sobre você mesmo e consiga passar isso adiante para que outras pessoas também tenham a capacidade de se perceberem de uma maneira diferente. Uma dor não é só “uma dor” é uma história.