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Didó, o curandeiro

Didó, o curandeiro

Didó, o curandeiro. Livro escrito por Sonia Hirsch, 1987

Numa abordagem simples, poética, cultural e delicada, Sonia Hirsch apresenta de forma didática e lúdica o cuidado com a saúde e a visão das medicinas naturalistas e sustentáveis.

Apresento uma das partes clímax do livro, onde repórteres fazem entrevista com o curandeiro Didó, que vive na grande floresta e foi salvar a vida de Manuela, célebre repórter que foi enfeitiçada pela borboleta azul. Didó explica com clareza suas percepções de vida, saúde e doença.

“(…) Didó responde a uma rajada de perguntas de repórteres:

— Como sabe que Manuela tem um feitiço, e não uma doença nova e ainda desconhecida para a medicina oficial?

— Oxente, todo mundo lá na floresta sabe que isso que ela tem acontece quando borboleta azul consegue fisgar alguém.

— Como é que nenhum cientista daqui jamais ouviu falar nessa borboleta?

— Vai ver que ela não gosta de cientista, ou eles é que ainda não procuraram encontrar ela.

— Como é que o senhor trata de doenças se nunca estudou na escola e não sabe escrever nem ler?

— Não tinha escola quando o criador fez o mundo, e nem por isso as criaturas deixaram de viver com saúde.

— Qual a sua definição de saúde?

— É quando a pessoa não se queixa de nada nem prejudica ninguém; é quando tá bem disposta pra tudo, gostando da vida e querendo mais.

— E a sua definição de doença?

— É a tristeza, o impedimento, a falta de harmonia no corpo ou na mente ou no espírito daquela pessoa. É uma falta de vontade de viver se manifestando na forma de doença.

— E quando a doença vem de fora, como a dengue, a febre amarela, a malária, que são transmitidas por mosquitos?

— A pessoa tem que aprender a se defender, no caso mantendo a limpeza em volta da moradia e comendo inhame. O inhame faz bem pro sangue e impede todas essas doenças trazidas por mosquitos.

— Quantas doenças existem?

— Só duas: uma fácil de curar, porque tá no começo, outra difícil, porque já se adiantou e a pessoa não fez nada. Por exemplo: a pessoa sente dor de cabeça, ou de estômago, ou de coluna, e da primeira vez não liga. Aí sente de novo e também não liga. Se ligasse podia descobrir que é devido a alguma comida, ou algum esforço que faz todo dia do mesmo jeito, mas não. Vai levando. Então, quando vê, a coisa já ficou feia, já quer arruinar.

— Quer dizer que as doenças só acontecem porque a pessoa deixa?

— É. Aqui na cidade, então, nem fala. Aqui quase todo mundo que me procurou tem posses pra viver bem, com saúde, porque para o miserável sem casa e sem roça já é mais difícil; mas os de posses abusam mais ainda que outros. Morrem pela boca de tanto comer comida ruim, cheia de veneno. Botam veneno nas coisas pro bicho não comer, aí eles mesmos é que comem, já viu isso? Veio um menino aqui com um tal de sanduíche que tinha uma carne dentro que ficava não sei quantos meses num tal de cogelamento, vê só; mas todo mundo sabe que carne dá bicho, então só tinha que ter algum veneno lá dentro, e o tal ainda não sabia por que o fígado e os rins dele davam sempre tão mal…

— Didó, qual a coisa mais errada em matéria de saúde?

— De saúde e de tudo, pra mim a coisa mais errada é a pessoa ir contra sua própria natureza. Que cada pessoa é de um jeito, então sempre tem um porém diferente da outra. Às vezes, ela sente que precisa tomar sol, por exemplo, então sua natureza naquele dia é tomar sol. Às vezes ela sente que não é pra tomar sol, então sua natureza naquele dia é ficar na sombra. Esse jeito de ser varia conforme o dia, o tempo, a estação do ano, o frio ou o calor. Tem que prestar atenção no que sente pra saber o que é certo e o que é errado fazer.

— Mas como é que e presta atenção nisso?

— Oxente, prestando! Ficando quieto dentro de si de vez em quando, olhando pra dentro a fim de ver se tá tudo no devido lugar.

— O senhor só cura as doença fáceis ou as difíceis também?

— Eu não curo nada, só clareio o caminho. Quem se cura é o próprio interessado. Se quiser ficar bom, ele fica. Se não quiser, diz que o remédio não adiantou.

— Mas não é o remédio que importa, seu Didó?

—  Não, o remédio é só uma parte da história. Porque se a pessoa deixa a coisa ir ficando mal acostumada por dentro, não é um troço que vem de fora que vai conseguir combater aquilo; é a própria vontade da pessoa que pode mudar a disposição do sangue e da energia do corpo para aquele remédio ter a chance de ajudar.

— Mas e no caso do antibiótico?

— Do quê?

— Antibiótico. Aqui quando uma pessoa tem uma infecção, ela toma um remédio chamado antibiótico que acaba com a infecção. Como é que o senhor trata disso?

— Óia, moço, lá na floresta não tem nada com esse nome não. Mas pela sua cara quer me parecer que suncê tá falando de um mal que dá febre alta, dá um movimento do sangue para fora do normal,  dá pustulência, é isso?

— Acho que é …

— Ah, sei. Costuma dar no pulmão fraco, em corte mal curado, em dente que não presta, é isso? Dá na goela?

— É isso!

— Ah. Então já sei. Bonitinho esse nome infequição. Como é o outro?

— Antibiótico.

— Esse não gostei tanto.

— Mas como é que o senhor trata isso?

— Oxente, tratando. Com chá, gargarejo, regime de boca, conversa no pé do ouvido, compressa às vezes de folha, às vezes de inhame com gengibre, às vezes de gengibre só, com alho, com sementes de bardana, depende do caso. Tem muito tipo de mazela, muito tipo de pessoa, cada uma de um jeitinho diferente, não é?

— E todo mundo fica bom com o seu tratamento?

— Óia, moço, eu já expliquei isso a suncê, mas vou explicar de novo que é pra ver se suncê entende: quem quer ficar bom, fica bom até sem nada. Quem não quer ficar bom, nem baixando curandeiros e médicos e esse antibiótico, não adianta que não fica. Melhora, piora, melhora, piora, vai cozinhando assim devagar que é pra não ficar são nem morrer de vez.

— E quando a pessoa quer ficar boa mas não tem força pra conseguir?

— Arranja empresada com um alma amiga, caridosa, que lhe dê uma boa vibração, que reza por ela… Mas tem que aproveitar, se agarrar na ajuda, dar valor à oportunidade. Tudo o que a gente pede com sinceridade, pode ter certeza de que recebe, seja das forças do alto, seja daquelas aqui de baixo mesmo.

— Didó, voltando ao caso de Manuela, os médicos acham que é doença e você diz que é feitiço. Qual é a diferença?

— A diferença é que foi uma coisa que aconteceu vinda de fora, um pedido que ela não conhecia e por isso não fugiu dele. Mal comparando, é como se suncê entrasse num mato sem prestar atenção e pisasse numa cobra, aí ela mordia suncê, não é?, e aí dava uma doença mas era por causa disso. A borboleta azul não morde, mas enfeitiça. A pessoa que se deixa levar por aquela beleza toda entrega a alma a ela, então fica doente sim, mas é disso, de ir fraquejando por dentro, de estar encantada por uma coisa que não deixa ela ver a vida direito e viver como tem quer viver. O encanto toma cota igual ao veneno.

— A atendente do hospital disse que nos últimos dias a doença da Manuela faz ela ficar batendo no peito assim duas ou três vezes…

— Mas moço, isso não é da doença não, isso é a saúde voltando! Ainda ontem veio um doutor aqui conversar comigo e a gente falou muito disso, desse fogo que a gente tem aqui dentro do peito que é o sopro da vida, o alento, a alma, o coração a vontade de viver, ele disse que aqui isso se chama glândula timo. Até falou também que muita gente pensa que essa fogueira vai apagando quando a gente deixa de ser criança, a glândula vai ficando pequena e some, mas não é verdadeiro isso não. Ela acompanha a gente por toda a vida. Mas quando a gente leva um susto muito forte, ou fica muito contrariado, ou tem uma doença, ou se cansa demais, a fogueira vira uma brasinha toda coberta de cinza; o fogo da gente vai apagando. Por isso a gente tem que dar essas pancadas no peito, que é como soprar uma brasa. E óia, quando a fogueira tá forte os inimigos do corpo e da mente não conseguem entrar, ou se entram ela manda fogo neles. Mas quando tá fraca, entra tudo. Esse doutor falou muito nas doenças de hoje, um tal de câncer, uma tal de aids, e a gente concordou que isso é coisa de brasa quase apagada…

— Mas por que a Manuela ficou com o timo fraco?

— Porque foi se esquecendo de quem era, não é? Por causa do encantamento. A pessoa não pode nunca se esquecer de si. Tem uma moça aqui que o garotinho dela tava fraco, quase se esquecendo dele mesmo, aí eu perguntei se ele era encantado por alguma coisa, ela explicou que ele ficava o dia todo olhando aquela caixinha de luz onde a gente vê as coisas…

— Televisão?

— Isso. Então pra ele a vida é aquilo que tá ali, e ele parado olhando, aí ele não fica sendo nada, porque não faz nada, a vida só acontece dentro da caixinha, então ele se esquece de si e a fogueira vai apagando.

— E é só batendo no peito que se fortalece o timo?

— Ah, não, tem muitos jeitos. Por exemplo: quando suncê abre os braços para abraçar uma pessoa, a brasa dela se acende e a sua também. Só de pensar na abraçação já dá uma esquentada por dentro, não é? Quando a gente ri também é bom, tanto que uma pessoa ri pra a gente e a gente logo ri de volta pra ela. E quando pensa em coisas boas, em horas de felicidade, quando sente um carinho, quando lembra de um lugar bonito, quando ouve uma música que agrada aos ouvidos… Quando dá risada com gosto compreendendo as coisas, de boa vontade, sem brigar com a vida… E quando tá amando, então? Óia, é um fogaréu no peito que é quase um incido!

— Então, quer dizer que se a pessoa fizer tudo ao contrário disso e ficar de má vontade, de cara feia, brigando, pensando só em coisas ruins e feias, o timo dela enfraquece?

— Enfraquece, essa tem tudo pra ficar doente. A brasa apaga. Ela gosta do que é bom pra suncê, então arde; e não gosta do que é mau pra suncê, então morre.

— Que engraçado, descobri agora um monte de palavras que têm timo no meio! Umas são boas, como estimulo, ótimo, íntimo, estima, e outras são ruins, como vítima, lástima, última, tímido. Obrigado, Didó! Vou pesquisar mais sobre isso, acho que dá uma grande matéria.

(E deu mesmo, porque mais tarde o repórter apurou que timo vem do grego thimos, que significa energia vital, e é a glândula encarregada de perceber e destruir os invasores e as células defeituosas do corpo. Mais: que ele é quem amadurece os linfócitos e produz células T, nossos principais agentes de defesa, e que num só dia de stress ou doença pode encolher até à metade de seu tamanho normal. Um danadinho, esse timo)”.