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O Céu, o Homem, a Terra

O Céu, o Homem, a Terra

// Matheus Almeida

Discursarei sobre um trecho do livro “Wu Xing: the five elements in chinese classical texts” (Wu Xing: os cinco elementos nos textos clássicos chineses) escrito pela sinóloga Elizabeth Rochat de la Vallée. Estarei dividindo com vocês as minhas divagações.

Devido a dificuldade de compreensão existente nos textos clássicos e as considerações da Rochat serem de grande profundidade me colocarei como um decodificador e buscarei clarificar o máximo possível a beleza do pensamento antigo. Uso a palavra antigo para fazer jus ao período que foi escrito, apesar do tempo não seria em nada arcaico, pelo contrário, de uma atualidade assustadora.

O texto a seguir não almeja em oferecer condutas terapêuticas com seleção de pontos de acupuntura, planejamentos de plantas medicinais ou algum direcionamento alimentar. Há, porém, um destaque na importância do pensamento chinês que é a base para a prática da Medicina Chinesa e sem o entendimento do que se apresenta a seguir toda e qualquer terapêutica é fraca e fadada ao fracasso.

Os cinco elementos ou movimentos são considerados como um dos pilares do pensamento chinês, partindo da filosofia até o olhar médico. Compreender a dinâmica desse pilar é compreender a medicina chinesa em si.

Segue o texto:

天之玄人之道地之化化生五味道生智玄生神

Tiān zhī xuán rén zhī dào dì zhī huà huà shēng wǔ wèi dào shēng zhì xuán shēng shén.

“No Céu (tiān 天) é mistério, no homem (rén 人) é caminho (dào 道), na terra ( 地) é transformação (huà 化). Transformação cria os cinco sabores, o caminho cria a sabedoria, o mistério profundo cria os espíritos”

 

Quando nos defrontamos com o meio ambiente em que vivemos somos constantemente sujeitos às suas variações, que por fim, influencia nosso corpo/sistema. O meio se faz uma variação importante no nosso estado de saúde – qì 氣 (elemento tão presente em toda a elaboração médica chinesa, o elã vital).

O texto acima nos apresenta o YīnYáng como Céu/Terra e um terceiro elemento caracterizado como o qì [o homem] como o meio, o centro, o elemento de conexão entre as duas extremidades. O qì é o fundamento de ligação entre o celestial e o terreno, aparecendo filosoficamente como o Homem nos clássicos chineses.

Segundo Rochat: “o Dois é a habilidade do Um em se abrir e se diferenciar em ordem … Três é o espaço mediano com todas as interconexões e é o número apropriado para o qì”. Com muita frequência os números aparecem nos textos clássicos expressando uma qualidade. No pensamento taoísta o Um representa o inominável – o Dào; o Dois como a oposição complementar do YīnYáng; o Três como a manifestação de todas as coisas – o qì que conecta tudo ao redor como uma grande rede.

Quando analisamos o balanço natural da vida nos aspectos citados, vemos que o ser humano morre prematuramente porque é incapaz de parar. Na vida há um equilíbrio entre o YīnYáng e o qì. Saber parar, saber sobre o movimento dos sentimentos, como se comportar … essa é a verdadeira sabedoria.

“No Céu é mistério”: algo que não pode ser reduzido para nossa compreensão. A autora chama atenção para simples elementos como os cabelos – “por que tenho esses cabelos? – você pode responder por conta dos genes, mas por quê? Por que tenho esses genes. Eu posso dizer que é por conta dos meus pais ou avós, mas qual é o sentido final? É mistério. A origem sempre é um mistério. É a fonte da vida”.

“No homem é o Dào”: o caminho, cada ser humano tem seu próprio caminho, seus próprios princípios que guiam sua vida. O Dào é o princípio da vida.

Somos produtos das nossas escolhas, das nossas decisões. Como ser capaz de viver segundo as circunstâncias sem alterar minha identidade, meu íntimo? O ideograma Zhī 智 resume significando “saber agir”, “saber como viver”, sabedoria, habilidade. A maneira como agimos contextualizada em nós e com o ambiente chama-se sabedoria em ação, ação natural.

Compreende-se a dificuldade de colocar tal elemento em prática, a Rochat cita em seu texto que os próprios escritos antigos entendiam essa dificuldade, mas não impossibilitavam o por em ação. Cada um de nós segue o que deseja seguir, consciente ou inconscientemente. A Medicina Chinesa ajuda a tornar consciente elementos ainda obscuros dentro de nós mesmo, e quando somos guiados pela luz da nossa própria consciência nos curamos de qualquer mal.

 

Bibliografia: ROCHAT DE LA VALLÉE, E. Wu Xing: the five elements in chinese classical texts. Monkey Press. 2009 (p.100-104)