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Reflexões e Elaborações de Conceitos Médicos: uma passagem pelos clássicos

Reflexões e Elaborações de Conceitos Médicos: uma passagem pelos clássicos

Revista Medicina Chinesa Brasil, volume VIII, n. 23

por Matheus Almeida

 

A visão ocidental sempre se baseou na dicotomia mente e corpo – cogito ergo sun (“Penso logo existo”  – René Decartes, 1637). Este é sem dúvida um grande bloqueio para a compreensão do pensamento oriental. Para nós ocidentais o fenômeno emocional e o fí­sico pode ser distinguido, mas para a visão oriental antiga não há tal reconhecimento.

Ao se pautar na escrita tradicional chinesa, o grande desafio é traduzir os tratados clássicos, tradução esta que não pode ser feita de forma literal pois cria-se falhas e lacunas na compreensão do texto, a imagética do ideograma e a subjetividade do mesmo são perdidas. Neste artigo trarei o sentido de alguns ideogramas e passagens, não irei traduzi-los para poder mantermos sua originalidade. Justifico minha escolha com o ideograma a seguir: 喜 traduzido como alegria, onde sua etimologia traduz o prazer ou a satisfação derivada do ato de alimentar-se, joie de viver (alegria de viver) ou o prazer de estar em companhia. Habitualmente a imagem supera o sentido da palavra.

Um dos pilares da teoria da medicina chinesa é o conceito de ShénJīng 神气精, mente/espírito – energia – essência como as três traduções mais usuais. Talvez um dos conceitos mais falados durante a formação acadêmica e um dos menos compreendidos. A profundidade e possibilidade de confusão são tão grandes que vemos shén em dicionários simples, como o Dicionário Conciso chinês-português de Wang e Lu (1994), como Deus ou Divindade. Isso mostra a dificuldade que existe quando buscamos romanizar indiscriminadamente conceitos especialmente médicos chineses.  Já vê-se autores como o Eyssalet (1990) traduzindo shén como consciência ou força organizadora.

Gostaria de destacar que o que é descrito no dicionário está correto, mas no sentido popular de shén, e não na cosmologia médica. Por isso devemos contextualizar e analisar com minúcia e clareza o sentido maior e não isolado do ideograma.

O Clássico da Medicina Interna do Imperador Amarelo Eixo Espiritual capí­tulo 8 traz a seguinte passagem:

本神

黃帝文於歧伯曰,凡刺之法先必本於神,血脈營氣精神,此五臟之肵藏也,至其淫泆離臟則棈失,魂魄飛揚,志意慌亂,智慮去身者, 何因而然乎,天之罪與人之過乎, 何謂德氣生精神魂魄心意我志思智慮,請問其故。

“Imperador Amarelo pergunta: Quando estudamos a técnica de inserção da agulha, o básico [porém o mais importante] é sempre o shén. O sangue, os vasos, o nutritivo, a força vital, a essência, a consciência, estão todos estocados nos órgãos. Dispersão excessiva [irá causar neles] um desancorar dos órgãos. Isso significa que perder-se-a a essência; a diretriz de vida e sentimentos “saltarão” (desancorarão); a vontade e o propósito ficarão desorientados. Inteligência deixará o corpo. O que causa isto? É uma punição dos Céus ou um erro do indiví­duo? O que são: virtude, força vital, vontade, essência, consciência, diretriz de vida, sentimento e propósito?

歧伯答曰,天之在我者德也, 地之在找者氣也, 德流氣薄而生者也, 故生之夾謂之精,兩精相搏之神,隨神往來者謂之魂,並精而出入者謂之魄,所以任物者謂之心,心有所憶謂之意,意之所存謂之志,因志而存變謂之思,因思而遠慕謂之慮,因慮而處物謂之智。

Qíbó respondeu: O Céu em Um é virtude. A Terra em Um é força vital. A virtude descende e encontra a força vital ascendendo, e assim faz-se a vida. No entanto o que chama-se vida é essência. Quando a vida se faz na essência esta é a consciência. O que segue a consciência no ir e vir é a diretriz de vida, e paralelo a essência no entrar e sair chama-se sentimento”.

Antes de desenrolar o texto acima entraremos em alguns conceitos diretos sobre termos presente na passagem que acabamos de ler, em que nós praticantes temos contato a todo tempo e muitas vezes não temos idéia do que se trata.

Jīng 精 algo similar à  essência, energia vital, processo de movimento intimamente ligado à vida em si. Precursor do desejo.

氣 é a energia que se aproxima do sentido da fí­sica quântica. É presente em tudo, no que é animado e inanimado. Está envolvida em todos os processos, é o aspecto do movimento do desejo, a qualidade funcional dos fenômenos. Na medicina pode ser visto como força vital.

Shén 神 é o mais rarefeito, em sua tradução recorremos aos superlativos como: “mais puro”, “mais vital”. É a energia funcional de ativação. Consciência ou complexo Mente-Corpo- Espí­rito.

Hún 魂 o mais próximo do que entendemos de alma na visão cristã, embora não devemos entender apenas desta maneira. Diferenciado pelos seus ciclos, não pertencendo ao tempo. Ele entra no corpo na concepção e sai do corpo quando este fenece. Ele é pertencente ao Céu. É a nossa diretriz de vida envolvido com nossa capacidade de se relacionar com o mundo ao redor, com as pessoas e as situações de vida.

魄 é parecido com o hún, exceto por ser mais material. Morre com o corpo indo para terra. Pertence à Terra. Relacionado com a nossa capacidade de se perceber no tempo e no espaço, com a consciência corporal.

Líng 靈 complementar a shén. Relacionado com a nossa capacidade de influenciar o curso das coisas no universo, capacidade de colocar nosso destino a nosso favor, ou não.

德 um estado do ser, desenvolvido pela cultivação própria, porém dado a nós pelo Céu, geralmente traduzido como “virtude” ou “poder” e é visto como parte do caráter ou personalidade. Algo que pode ser cultivado dentro de cada pessoa e usufruído ao longo da vida, facilitando o cumprimento do seu mí­ng oferecido pelo Céu.

Mí­ng 命 o que vem do Céu para criar o ser, configurando sua existência. Muito comumente traduzido como “destino”.

Quando o grande conselheiro do Imperador Amarelo, Qíbó, diz:

O Céu em Um é virtude(德). A Terra em Um é força vital(氣). A virtude descende e encontra a força vital ascendendo, e assim faz-se a vida.

Significa que para o taoí­smo a criação do homem é quando algo que vem do Céu se une com algo físico que vem da Terra e assim a vida pode ser criada. O que pode ser uma alusão à relação alma/espírito e corpo. é o que possibilita a posse de nós mesmos e o encontro conosco, demonstra a retidão e a autenticidade do indivíduo em ação.

Quando a vida se faz na essência(精) esta é a consciência(神)

Esse trecho nos traz a idéia de que quando temos o meio material para o surgimento da vida somos então dotados de consciência. Assim diz o clássico: quando o shén encontra o jīng a vida brota e a consciência se ilumina.

O capítulo 54 do Lingshu também exprime essa passagem, de uma forma diferente:

黃蒂問於歧伯曰願聞人之始生何氣築為基何立而為楯何失而死何得而生

O Imperador Amarelo pergunta: eu desejo entender o sujeito no princípio da vida do ser humano, que energia contrói a base, qual elevação constitui o pilar, o que perdemos quando morremos, o que obtemos quando somos criados [quando vivemos]?

歧伯曰以母為基以父為楯失神者死得神者生也

Qíbó responde: a mãe é a base, o pai é o pilar. Perder shén é morrer, obter shén é acessar a vida.

Mãe e pai, vida e morte nos direciona ao yīn e yáng. Fica claro que shén é o suporte da vida, a via individual, mas sem jīng ela não se manifesta. O jīng é expresso de duas formas no corpo, a primeira de forma original, pré-celestial, na qual ambas passagens acima referem-se. A segunda através dos hábitos de vida, conhecida como pós-celestial. A conservação do jīng se encontra no nosso cotidiano. Se esse elemento essencial é conservado o shén pode se manifestar com plenitude e a vida se decorrer com serenidade.

O que segue a consciência(神) no ir e vir é a diretriz de vida(魂), e paralelo a essência(精) no entrar e sair chama-se sentimento(魄)

Quando temos a consciência bem ancorada e iluminada sabemos para onde ir, e quando possuí­mos os sentimentos estabilizados, sabemos onde ir com sabedoria. Com isso temos um propósito firme.

O que segue a consciência no ir e vir é a diretriz de vida(魂), e paralelo a essência no entrar e sair temos o sentimento(魄)

Matsumoto e Birch (1988) transcrevem um comentário de Xie Ling, que melhor explica essa passagem:

“O fí­gado estoca o hún. O hún é o jīng do yáng, o líng do qì. O qì do indiví­duo é yáng, o sangue é yīn. O fígado controla o sangue e seu interior é o yángqì, isto chama-se hún. Buscando a raí­z do hún [pode-se dizer] encontra-se/cria-se no yáng da Água (hexagrama Água). [Porém] podemos inferir que as ações do hún inicia-se no metal e é o básico [o fundamental] o qì do Metal (hexagrama metal yang). [O Ling Shu diz] o hún segue o shén no ir e vir; essa é a manifestação líng dos sentidos [pō]”.

Analisando a complexa explicação de Xie Ling, pautada em uma série de conceitos de grande profundidade identificamos elementos básicos como a interpenetração yīn yáng, no qual um somente existe em presença do outro. O autor traz a idéia de que para todo yīn tem um yáng dando suporte e vice-versa. Órgãos como o fígado e o pulmão são mal interpretados em sua fisiologia, pois pensa-se sempre que o fígado é um órgão yáng e o pulmão um órgão yīn, mas isso não basta.

O que ancora o hún é o sangue do fígado, sendo assim este se relaciona muito mais com o sangue do que com o , em contrapartida o se ancora no do pulmão, então a relação predominante é com o . Pensemos, é a qualidade do pulmão que impulsiona o sangue do fígado, o é o sentir da vida, o hún a diretriz. É com a percepção fina de sentimentos que podemos direcionar nossa vida.

Quando Xie Ling conclui belamente que o hún é a manifestação líng dos sentidos [sentir], devemos remontar o conceito de líng que fala sobre a capacidade de influenciar o rumo de nossa vida e isso é sentir, mas direcionar é agir. Hún só o é por conta de , e vice-versa. É muito difícil falar academicamente de duas coisas que são indissociáveis, mas é crucial a compreensão desses dois elementos para uma prática clínica fundamentada.

Gostaria de finalizar destacando que o importante no pensamentos chinês é o entendimento de todo o desenho, quer dizer, a maneira que as estruturas se comunicam e o que faz a vida fluir é soberano sobre a estrutura vigente. A função é soberana sobre a forma. Interrelação é a palavra chave para entendermos saúde e doença e podemos agir com profundidade e completude com o indivíduo.

Compreender o conceito dos elementos chineses faz com que criemos um terreno sólido para poder desenvolver com sabedoria a aplicação essa medicina tão vasta e rica. Talvez muitos de vocês estejam se perguntando como colocar todos esses conceitos na prática clínica. Podemos começar respirando com o dàntiēn inferior para afinar/assentar o shén e mergulharmos no mistério do ser humano. E a essa última indagação fica como tema para um outro artigo.

Bibliografia:

MATSUMOTO, K. BIRCH, S. Hara Diagnosis: reflections on the sea. Paradigm Publications. Brookline, Massachussetts, 1988.

WANG, S. LU, Y.P. Dicionário Conciso Chinês-Português. Editora Ny.

VALLÉE, E.R. LARRE, C. Os Movimentos do Coração: psicologia dos chineses. Editora Pensamento-Cultrix. São Paulo, 2007.

EYSSALET, J.M. Shen ou L’Instant Createur. Guy Trédaniel Éditeur. Paris, 1990.