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Xīn 心 por um coração-consciência

Xīn 心 por um coração-consciência

Revista Medicina Chinesa Brasil, Ano VII, vol. 22

por Matheus Almeida

 

“ [Aqueles que] dizem que doenças não podem ser curadas fala com falsidade. [Aqueles que] usam as agulhas devem buscar [a causa das] doenças. Então o “espinho” pode ser removido, a “sujeira” limpa, o “nó” desatado e o “bloqueio” desfeito. Mesmo a doença de longa data pode ser parada. Aqueles que dizem que [essas condições] não podem ser tratadas ainda não compreendem sua habilidade”. (Língshū, cap 1)

Nosso corpo adoece com frequência maior do que gostaríamos. Haja vistoque nós somos os maiores provocadores ou incitadores do adoecimento. Nada surge ao acaso ou por um mal agouro do destino, quiça da genética. Pobre genética que responde a tudo o que não é explicado!

Quando observamos melhor nossos hábitos de vida: o que comemos, como dormimos, os vícios (lícitos ou ilícitos), o trabalho excessivo, o sexo sem ponderação (ou a falta de), os relacionamentos tóxicos, o dia a dia automático, as más escolhas …, temos a capacidade de perceber o quão prejudiciais eles podem ser, tornando-se fontes de um desajuste na saúde.

Para toda e qualquer um desses e outros hábitos não citados, deletérios ao corpo, o adoecimento é a resposta, seja imediata ou tardia. Mas sempre que nos vemos em mal estado de saúde nos perguntamos ingenuamente, por que estou doente, não fiz nada de errado?

Analisando a citação que inicia esse artigo, chamo atenção para o último trecho: “Aqueles que dizem que [essas condições] não podem ser tratadas ainda não compreendem sua habilidade”. Essa habilidade pode ser entendida tanto para o terapeuta que não entende a extensão da terapêutica e por isso falha, quanto para o próprio indivíduo que desconhece da própria habilidade inerente do corpo de se auto-curar, auto-regenerar e por isso também falha.

É sabido que o auto-cuidado, o ser vigilante consigo mesmo não nos imuniza da doença, mas nos coloca no “adoecimento saudável”, ou seja, respondemos as variações climáticas, as intemperâncias emocionais que estamos fadados vivenciar. Mas há uma vantagem em tudo isso, a recuperação ao estado saudável é mais rápida, seguido de uma resolução da má saúde e o sofrimento é menor. A isso nomeamos de estado Píng Rén 平人, estado de cura. A cura não é a ausência total da doença, é a representação do ser humano em estado pleno e sabendo lidar com as variações que a vida lhe apresenta. Isso é a cura!

Píng Rén em uma tradução literal significa o homem em paz. Esse estado surge através de uma tomada de consciência. Quando falamos em consciência, estado de plenitude, o chinês atribui esse elemento ao coração Xīn 心, coração-consciência, local onde o Shén 神 nossa força criativa individual se abriga.

Shén refere-se amplamente a manifestação da vida, geralmente traduzido como “espírito” ou “mente”, na Medicina Chinesa (MC) o termo refere-se as faculdades mentais do estado alerta-consciente.

Não por acaso quando nos remetemos ao corpo, em chinês, também o nomeamos Shēn 身. A força criativa individual/consciência (Shén) se confunde com o próprio corpo (Shēn). Isso nos leva a pensar em como atingir o corpo sem tocar na consciência e vice-versa?

Após anos estudando e praticando a MC comigo mesmo e com meus caros pacientes, me sinto, hoje em dia, confuso quando alguém me questiona sobre qual é minha especialidade, ou se trato mais as questões do corpo ou da mente. O tratamento sempre foi e continua sendo sobre o indivíduo na sua totalidade, totalidade que envolve a completude dos sentimentos e percepções, sejam físicos ou psíquicos. É sempre corpomente assim juntos.

União corpomente: abordagens fisiológicas.

Em muitos artigos faço questão de falar repetidamente sobre YīnYáng 阴阳, o Qì 气, os cinco elementos ou movimentos (Wǔxīng 五行). A cada nova exposição sobre o tema mergulho um pouco mais nesses princípios diretores da MC, pois eles são o pulsar do saber médico chinês, do saber da vida.

Segundo o Prof. Wang, em uma bela decodificação sobre YīnYáng e cinco movimentos, estes seriam a linguagem básica da MC, vemos adiante os Zàngfǔ 脏腑 representando a fisiologia e a patologia e por fim os Jīngluó 经络 sendo as redes de conexão.

YīnYáng atuam como elementos de categorização do Qì (potencial de mudança). Há um “olhar analítico” das coisas sobre o movimento. A vida é uma onda: sempre em movimento com altos e baixos e em adaptação constante. O chinês representa com muita beleza o ir e vir da vida relacionando com o balanço do YīnYáng.

O terapeuta deve ser treinado para perceber essa dança. Sempre em algum nível ambos Yīn e Yáng estão presentes. Essa é a chave para analisar em qual direção o indivíduo tende ao longo desse continuum de movimento. Cabe ao terapeuta identificar, nesse processo, quais são o fatores influenciadores dessa mudança analisando esse sistema de comparação encontrando o “ponto fraco” do indivíduo, a sua tendência “patológica”.

Os cinco movimentos atuam como um sistema de unificação. Cada peça do quebra-cabeça tem uma relação uma com a outra dentro do sistema geral. As vezes a conexão é simples, por exemplo uma dor de cabeça associada a menstruação, ou as vezes mais complexas como uma dor de coluna associada com uma tonteira.

Vamos pensar assim, unifica-se quando categoriza-se. Cada fase depende uma da outra para existir, isso implica que todo sistema encontra-se em um estado de equilíbrio/desequilíbrio dinâmico. Cada parte do corpo depende uma da outra para existir. No momento, em que um acupunturista agulha a mão para melhorar o ombro, o paciente questiona se irá tratar o ombro pela mão. Sim, o corpo é um conjunto e há um sentido muito bem embasado para tudo isso.

YīnYáng – analisa a natureza das substâncias vitais/situações

Cinco movimentos – conceitua sobre o todo incluindo suas inter-relações.

Chegamos aos órgãos e vísceras (Zàngfǔ 脏腑). Observamos agora o sistema de saúde e doença. Eles têm a capacidade de manifestar tanto um bem estar quanto uma patologia. Há uma potência inerente no corpo de adaptação, seja em bom estado de saúde ou em mal estado.

Neste ponto entendemos que dinâmica é a palavra chave do pensamento chinês. Sendo assim, YīnYáng e os cinco movimentos irão assumir forma no corpo como órgãos e vísceras e meridianos (Jīngluó – redes de conexão). Essas redes são capazes de unir um órgão a outro e o corpo com o Qì. O meridiano se torna parte do órgão e é por ele que nós, acupunturistas, influenciamos o corpo. Palpamos o órgãos e suas conexões através dessas redes que os chineses chamam de Jīngluó.

É muito importante relacionar os meridianos – a teoria dos Meridianos/Canais – com a fisiologia humana, com a evolução da doença e o mecanismo para o tratamento dessa doença.

Os meridianos são entidades vivas, pois é com a ajuda deles que o corpo se adapta pois o Qì é o seu mestre. É importante entrarmos em contato com o corpo através de nossas próprias experiências. A teoria é importantíssima, mas a prática, a experiência é insubstituível.

Meu objetivo nesse artigo é tocar o coração-consciência seja do praticante, seja do indivíduo que deseja aprimorar algo mais na sua vida. Tomar as rédeas da vida. Que tenhamos em mente que somos a natureza ao nosso redor. Para os antigos, proteger e respeitar a natureza era o mesmo que proteger e respeitar a si mesmo. O princípio do caminho é o caminho em si, o profissional que se aprimora para cuidar do outro deve antes cuidar de si, o indivíduo que almeja uma vida mais saudável não deve ser temeroso de entrar em contato com si mesmo. Vemos no ditado chinês:

木下曰本

mù xià yuē běn

Abaixo das árvores encontram-se suas raízes

A passagem ilustra o significado do Shén – força criativa individual enraizada e implícita, é o núcleo inato do ser humano. Na profundidade das raízes transformamos verdadeiramente nosso ser.

Muitos de nós terapeutas consideramos muito simples tratar uma gripe, uma dor no pé, uma gastrite, mas esquecemos que muitas vezes para alcançarmos essa mudança não basta dominar somente a terapêutica, como dizer o que deve ou não ser feito. A mágica do tratamento mora em tocar o coração-consciência do indivíduo, assim este estará aberto para a mudança de algo difícil para cada um de nós: o hábito.

Lemos:

刻骨铭心

kè gǔ míng xīn

Gravado nos ossos e impresso no coração

Muito das nossas vivências e experiências moram nos nossos ossos e coração, cicatriza, ou cristalizam-se em ambos. Que possamos sempre transformar o corpo tocando ao coração aceitado nossa limitação e o ir e vir da vida em eterna mutação.

Esse artigo foi desenvolvido através da elaboração de grupos de estudos de Medicina Chinesa ministrados por Matheus Almeida

Bibliografia:

WANG, J.Y., ROBERTSON, J.D. Applied Channel Theory in Chinese Medicine: Wang Ju Yi`s lectures on channel therapeutics. Eastland Press. Seattle, 2008.

QU, L.F., GARVEY, M. Early Chinese Perspectives of the Mind: a evolutionary account of theShén in chinese medical psychology. Journal of Chinese medicine, number 109, October 2015.

LANGEVIN, H.M., YANDOW, J.A. Relationship of Acupuncture Points and Meridians to Connective Tissue Planes. The Anatomical Record (New Anat.), 2002.